Sobre a Música

” And I didn’t understand

When you reached out to take my hand

And if you have something to say

You’d better say it now

Cause this is what you’ve waited for

Your chance to even up the score

And as these shadows fall on me now

I will somehow”

Eu nem tenho certeza de qual o objetivo mesmo deste texto. Acho importante esclarecer isso desde já pra que ninguém perca tempo que não quer perder. Acho que antes de tudo eu quero organizar alguns pensamentos, e às vezes parece mais fácil fazer isso escrevendo.

Esses dias, por muitos motivos diferentes, eu tenho pensado em como a gente encontra amor pela vida de diversas maneiras. Aí a gente planeja um pouco, sonha um pouco (muito, no meu caso). Só que a gente nunca conta que as circunstâncias podem mudar completamente, ou que pode ser que a gente encontre amor em circunstâncias muito adversas, nas quais a gente mesmo sempre jurou que nunca se meteria. Porque a vida está aí, acontecendo. E aprender a lidar com o que é possível de cada amor é muito difícil.

Hoje eu assisti a “Once” de novo, e eu acho que esse é um filme que representa muito bem isso de nem todos os amores serem possíveis da forma como nosso desejo pede. E quando essa coisa de um amor não poder ser o que a gente quer dele acontece, eu fico me perguntando, a gente precisa mesmo abrir mão da outra pessoa por isso? Sei lá, eu entendo quando é uma paixãozinha pela qual a gente sofre, que é melhor se distanciar em alguns casos… Mas e se for aquele encontro que você sabe mesmo que não corre muito risco de ter outro semelhante na vida? Eu penso que talvez dê pra transformar o amor em música, como o que acontece no filme.

Há um tempo eu tinha pensado em escrever um texto sobre relacionamentos abertos, comparando fazer sexo a compor junto. Isso porque compor, pra mim, é algo que exige muito mais abertura, exposição e cumplicidade que fazer sexo. Mas bem, no meio do caminho houve tanta confusão sobre tudo isso na minha cabeça que, embora eu continue pensando dessa forma, ficou difícil escrever o texto.

O Zeca Baleiro tem uma música em que ele diz que transformar lágrima em canção é um milagre. Eu, que não tenho nenhum traço de religiosidade, gosto de crer nesse milagre específico. E talvez essa seja uma maneira de não deixar um amor morrer quando ele não pode ser realizado do jeito, vamos dizer, romântico tradicional. Não vai deixar de ser amor, e é impossível calar um desejo só com isso, mas pelo menos é um jeito de deixá-lo vivo. Um jeito dolorido, sim, mas penso que em alguns casos soluções indolores não estão no campo do possível.

Como diz meu amado Chico César, “o carneiro sacrificado morre, o amor morre. Só a arte não”

“Casa dos meus pais” – ”Lá em casa”

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Uma cena comum:

Duas pessoas moram juntas. Aqui não interessa a relação entre elas. Se são casados, amigos, juntos ou qualquer outra coisa. O fato é que uma delas se prepara para sair, ao passo que a outra pergunta: “Onde tu vai?”. A pessoa que vai sair responde: “Vou só ali em casa”.

Acho que todo mundo entendeu o que quis dizer aqui né?

Não?

Vou explicar então. A grande maioria das pessoas tem esse lugar de referência: a casa dos pais, a casa da mãe ou a casa do pai. Há um pertencimento nato. Esse lugar, que é dos seus parentes e que você nem deve mais morar lá, será sempre um “lá em casa”.

Para algumas pessoas pode ser algo absolutamente sem importância, porque é tão “natural”, tão rotineiro, tão cotidiano que não percebemos a força que isso tem. O “lá em casa” é um porto seguro. Percebemos isso quando não o temos mais, seja porque os pais faleceram, mas o “lá em casa” pode ainda ser uma lembrança boa, ou porque nunca tivemos esse elo.

No meu caso particular, sou filho de um pai sem casa, porque ele mora na casa da esposa dele e de uma mãe sem casa também, porque ela mora na casa do esposo dela. Isso posto, porque inclusive foi algo já verbalizado por ambos companheiros de minha mãe e de meu pai, sou essa pessoa sem o “lá em casa”.

Mesmo sendo a casa onde moram os meus pais, há sempre um sentimento de constrangimento. Não é aquele lugar em que você normalmente chega, abre a geladeira, fuça as panelas, deixa uma camisa na cadeira da sala sem nenhuma culpa.

Já morei em casa de avós. Em casa de tios. Em casa de amigos. Sempre para mim ficava muito claro que era “a casa dos outros”. Isso era estabelecido pelas relações que se davam na própria casa.

Atualmente moro na casa da esposa do meu pai. Um lugar que ainda não consigo verbalizar como “lá em casa”. É e vai ser durante algum tempo o lugar onde moro, mas não o “lá em casa”, porque por mais que meu pai e sua esposa tenham me acolhido, sempre vai ser a casa do outro, porque não construí nenhuma relação com o que lá se encontra e a minha presença interfere na rotina antes estabelecida por eles. Haverá, em algum momento, um incomodo pela minha presença, exatamente porque é a casa do outro. É um ambiente em que você é limitado para não interferir no ritmo que era comum na casa. Exemplo que se deu agora ao redigir esse texto, em que o cheiro de ter um animal (que é meu) já está produzindo incômodos.

Outro fato é o da limitação. Todas as minhas atividades são feitas apenas em um quarto de 8 m²: criar uma gata, ter a caixa de areia dela, colocar minhas roupas, minhas cama, meus livros, lugar onde leio, onde vejo algum filme, onde estudo, onde escrevo. As possibilidades de receber alguém são limitadas.

O meu “lá em casa” era a minha casa, um tempo morando sozinho, outro tempo dividindo com outras pessoas, com coisas (utensílios, eletrodomésticos, mobília) que eram minhas e que assumiam um lugar que eu gostava que elas ficavam. Que se eu decidisse que hoje eu não queria dormir no meu quarto, mas colocar uma rede na sala. Em que assumia um lugar de protagonista e não de coadjuvante.

O fato é que mais uma vez isso se repete. E vai demorar algum tempo pra eu poder dizer “lá em casa”. Porque quando isso acontecer, não queria mais ter que me submeter, mesmo que de forma generosa, “a casa dos outros”.

Das primeiras perdas…

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Deito com os meus tormentos. Acordo com a missão derradeira de levar comigo apenas o suficiente. O que dá para levar.

Das coisas que para mim eram tão caras e agora estou tendo que desapegar.

Da casa de dois andares: com sala, cozinha, garagem, dois quartos, três banheiros. Dediquei tanto tempo para imprimir a minha identidade nesse lugar. Doei tempo para fazer sua manutenção que para mim era tão agradável, prazeroso. Deixar meu habitat limpo e do jeito que gosto, um hobby. Houve um investimento. A gente se reconhece no nosso lugar, porque o nosso lugar tem um pouco da gente. A gente estabelece relação. Aquele lugar fala de você.

Não ter mais aquele cantinho para acender um cigarro, aliviar a pressão do dia.

Não ter mais aquele lugar onde armava uma rede e deixava o tempo passar ao som de qualquer programação na TV.

Trocar um quarto de 20 m2, onde tudo tem o seu lugar, e quando enjoava, mudava tudo, por um de 12 m2, onde suas coisas mal cabem. Onde não há espaço para transitar. Onde você convive com coisas abarrotadas.

Onde você mesmo não cabe, que dirá os amantes.

Nesse pequeno espaço, só a lugar para coisas. Sem espírito, sem calor, sem desejo, sem vontade. As coisas que para mim tinham vida, agora parecem mortas.

Uma pílula para dormir e esquecer isso por algumas poucas e precárias noites de sono. Outra para acordar e suportar as horas que se arrastam.

É duro lidar com as perdas. Me dá falta de vontade, falta de ânimo. Sou um corpo mecânico. Sigo comandos. Pois eu mesmo, nesse momento, estou impossibilitado de criar.

Falta concentração. Falta autonomia. A gente só se sente no mundo quando se reconhece no seu lugar e é reconhecido pelos seus.

Nesse pequeno espaço, embora oferecido de tão bom grado, não consigo produzir uma única ideia. Não consigo ver uma saída.

Sinto apenas a dor por aquilo que perdi. São perdas materiais e imateriais.

Desfazer, desfazer-me. Ainda falta algo que me faça querer refazer-me.

Talvez um dia, alguma hora, tenha vontade de fazer isso.

Agora, tudo está turvo.

Agora, ainda é luto.

Agora, as coisas estão para ser postas em malas, em caixas, em bolsas, e serem rearranjadas nesse pequeno espaço.

Isso são as pequenas coisas que tenho noção que vou ter que me desfazer.

Há outras, que nem ouso pensar no momento, porque já me dói demais. Mas que terei que enfrentar…

Músicas e suas representações de gênero

Um vez, em uma conversa com um amigo sobre o forró estilizado fui chamado de preconceituoso. E a pessoa ainda me alertou que as representações desiguais estão em todos os ritmos, inclusive na MPB.

Fiquei pensando sobre a afirmação final de meu amigo.

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Uma de que eu seja realmente preconceituoso. Quanto a isso, digo, tenho preconceito sim, quem não tem? E acho que esse nem é o problema. O problema é o que eu faço com ele.

Bom, se sou preconceituoso com o forró estilizado, sou, mas até onde eu me lembre, nunca me manifestei de forma odiosa ou violenta, apenas tenho minhas críticas a partir do meu lugar no mundo. Nunca agredi nem verbalmente e nem fisicamente os que compõem, trabalham, cantam e dançam o tal ritmo. Nunca nem me retirei de um lugar (festa, ônibus, etc. – embora tivesse vontade de morrer em algumas situações) que tivesse tocando essas músicas.

No entanto, quando você não é o macho, você certamente sofrerá violência, no mínimo simbólica, por parte desse ritmo musical. E o pior de tudo, esse FORRÓ É DITO COMO PARTE DA CULTURA. E sinto muito, mas essa cultura aí está sendo desafiada continuamente a mudar.

Não estou sendo claro com o que quero dizer? Ok, vamos ao seguinte exercício de reflexão: Como são vistos os homens nas letras de forró estilizado? Como são vistas as mulheres? E os/as homossexuais? Percebe como os homens cis heterossexuais são fodas quanto comparado aos outros?

Sim, no lugar de dominação estão eles: os homens cis heterossexuais que pode até amar uma mulher (aquela que se enquadra no perfil para casar), mas que come todas as outras (as ditas raparigas, quengas e outras adjetivações), veste roupas de marca, bebe whisky-Redbull e anda num carro rebaixado. Estereotipificações a parte, pois nem todos os homens que escutam, dançam e curtem forró estilizado são absolutamente assim (e eu inclusive mantenho laços de amizade com alguns que curtem), mas é esse o arquétipo perfeito que é produzido e reproduzido pelas letras, e isso me incomoda profundamente.

Incomoda-me por causa da reprodução dos valores do patriarcado, porque funcionam como engrenagem da macroestrutura, inculcando objetos de desejo a serem consumidos. Aquela velha história do ter coisas em detrimento do ser alguém na sua singularidade. E o ritmo pode até ser contagiante, mas se fosse a professora do Charlie Brown cantando eu pudesse até gostar. O problema para mim é o apelo das letras, o que elas sugerem.

Vejamos agora as mulheres no forró estilizado, que lugares elas ocupam? O primeiro é o da mulher apaixonada e submissa, e por isso, superior aquelas que são consideradas raparigas por gozarem de sua liberdade sexual. Apenas essas mulheres tem lugar de fala nas letras. Não há lugar de fala entre aquelas consideradas biscates. Para exemplificar, repare a narrativa sobre a rapariga nas letras “Amor de Rapariga” do Forró Calcinha Preta e do Sirano e Sirino. Em nenhum momento houve a fala daquela sobre o qual é falada. E o pior de tudo, são letras que colocam mulheres contra mulheres por causa de quem? Isso mesmo, do homem cis heterossexual. Cria-se, portanto, intransponíveis barreiras de distinção entre homens e mulheres e entre as mulheres.

Mas isso também não acontece nos demais ritmos musicais, como a MPB, o Samba, o Funk, no rock, etc.? Sim, acontece! No entanto, nos demais ritmos há espaço para as múltiplas falas e representações. Há projeções desses sujeitos. E há reconhecimento também, o que tira do lugar de lixo social, de objeto.

Por exemplo, no funk. Ao passo que tem o Mc Serginho que fala o quanto ele é foda enquanto homem viril, tem a Valesca Popozuda com suas letras pautadas na dimensão da liberdade sexual das mulheres, não havendo problema algum nisso, pelo contrário, assume um caráter afirmativo e não de subalterna.

No rock, o dito estilo dos rebeldes, isso também ocorre. Conversando com as garotas que curtem o gênero, nas suas mais variadas formas, as mesmas relatam que são vistas como grouppies por parte dos homens e que assume, por muitas vezes, um caráter violento, de submissão. Entretanto, as mulheres têm disputado esse território, que é sim um território de representações de um determinado tipo de masculinidade, e feito trabalhos incríveis.

Sendo assim, por que essa perseguição apenas com o forró? Opa, minha perseguição não é contra o forró (eu gosto e danço), e sim, a um determinado ramo (não gosto e nem danço), que em todo o seu arsenal reproduzem distinções entre representações de gênero e sexualidade. E não, não que eu espere uma letra limpinha. Vale jogar a sensualidade na dança, no modo de se vestir, nas letras. Não assumo aqui um discurso moralista. Só acho que não vale essa de ficar colocando uns no pedestal e os outros embaixo dos pés, sendo outros mais embaixo ainda.

No dia que todas as vozes forem amplificadas nesse estilo, talvez passe a ver o tal forró estilizado com outros olhos. Desse modo, desafio que compositores e compositoras e demais partidários desse ritmo visibilizem as falas das raparigas não como destruidoras de lar, mas como mulheres que assumem a autonomia de seus corpos e que fazem isso por pura auto satisfação e não satisfação de outro. Desafio que as mulheres que já cantam subvertam esse discurso da mulher pudica, que “se valoriza”. Desafio ainda, a ruptura da heteronormatividade. Que tal possibilitar dança de homem com homem, de mulher com mulher, sem que seja essa coisa que é análoga à dança de acasalamento do macho com a fêmea, em que o macho que melhor conduz essa fêmea e que possui atributos como carro, roupa de marca e demais indumentárias seja o digno de copular com elas? Seria uma forma de romper com o caráter restritamente heterossexual do estilo. E ainda mais, que tal ultrapassar essa visão caricata, desrespeitosa e (sem nenhum medo de afirmar isso) homofóbica, encontrada nas letras?

Como bem disse a Lily Allen, no mercado da música (e aqui coloco todos os ritmos musicais), “It’s hard out here for the bitches” (Está difícil aqui para as vadias), e assumo esse adjetivo de vadia em uma perspectiva altamente afirmativa.

Meu poema erótico

Venha com esses olhos fervendo
Olhos cor de desejo e tesão
Olhar que me tira da cadeira
Seduz nas escadas
Que me atira na cama

Tuas mãos…
Mãos fortes que me tocam
Faz meu corpo estremecer
Com um único toque dos seus dedos
Hummmmmmm. Seus dedos.

Quando amanhece o dia
E vais embora para tua vida
Hoje, talvez, para muitas meninas
No futuro, a mulher, os filhos, a família
Não me importa

Pois tu levas o corpo
Mas fica o cheiro que a água não tira
Guardo como medalhas as marcas de mordida
Deixas em mim, tão breves e permanentes lembranças

Tu vais, mas tu sempre voltas
Passem dias, meses ou um instante
Não tenho como deixar de te desejar
Como deseja sempre um eterno amante

Eles não conseguem dizer adeus

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Era para ser apenas mais um encontro casual. Mútua experimentação um do outro. Como brincadeira. Mas daquelas brincadeiras que se faz escondida. Reinação. Tudo ocorria por debaixo dos panos, inicialmente. Tanto para um como para outro.

Se descobriram como criança que se descobre no mundo. Pelo cheiro, tato, visão, paladar. Nos minutos corridos do intervalo. Nas muitas noites.

Tão diferentes na forma de se ver, de ver o mundo e de construir a vida. Não daria certo.

O tempo foi passando.

Semana após semana. Mês após mês. Ano após ano.

Nenhum contrato entre ambos. Apenas o desejo, como bem diz Deleuze, que se criou, se expandiu e permaneceu. Mas junto ao desejo, pois nem tudo é só delicia, vem as demandas, os medos, as ilusões.

Os desejos de ambos, as demandas de um, os medos dos dois e as ilusões de outro. Um fim no meio. Uma volta no fim.

Fim?

Mesmo que um não caiba no projeto de vida do outro, eles não sabem dizer adeus.

Mas por hora, é isso, mais um fim.

Um fim que pode ser até um próximo surto de paixão, de saudades de um ou de outro. Ou quem sabe em uma próxima vida, se houver. Ou, possivelmente, poderá ser até o próximo mês, na semana que vem, ou no instante seguinte, pois o desejo é mais forte, arredio e difícil de ser controlado.

No mais, além disso, eles não conseguem dizer adeus.

Sobre o amor, “a pessoa”, “as outras pessoas” e Vinícius…

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Tive paixões platônicas. Muitas. Dessas bem bobas que vivem mais no nosso imaginário do que na realidade. Esquizofrenia. Nem mesmo eu era eu. Eu era aquilo que sonhava ser. A(s) outra(s) pessoa(s) a quem dediquei tal paixão nem era(m) ela(s) mesma(s). Era(m) o que eu queria que ela(s) fosse(m). Era um pouco dolorido viver sonhos assim, mas era confortável. Afinal de contas todos os problemas da (pseudo)relação eram resolvidos na minha própria cabeça.

Passa a adolescencia e parte da juventude.

Resolvo experimentar o sexo. “Ah! A primeira vez…” foi horrível! Com alguém que não tinha a menor intimidade. Que não me sentia nenhum pouco atraído. E foi mais dolorido do que qualquer outra coisa. Foi mais impulso, pressão interna, do que desejo. Melhor dizendo, era desejo por sexo, mas não desejava a pessoa. Mas estava ali, por que não? Era melhor não?

Pensei “Talvez não tenha nascido para isso”. Toda a minha história colaborava para essa negação da minha sexualidade, mas não é isso que quero explorar agora. Isso é um outro assunto dolorido demais. Engavetei o projeto e fui vivendo sem achar que precisava disso. Nem de amor e nem de sexo, que esperar então de sexo com amor (nas suas mais amplas variações). Já estava convencido. Mesmo com corpo de adulto, tinha jeito de menino. Era ainda tão verde. Era mais menino que os meninos de então.

Mas o acaso, aquele Exu que tudo vê e sabe, por pura vontade de brincar, resolve tirar esse projeto da gaveta. Coloca diante de mim, “a pessoa”.

No primeiro momento, não tinha qualquer expectativa. Se depois de transarmos, “a pessoa” tivesse ido embora e nunca mais voltado, seria como “as outras pessoas”.

Sim, depois disso, teve “as outras pessoas”, de verdade. E “a pessoa” possibilitou que eu encontrasse a minha sexualidade, primeiramente. Possibilitou, de forma ausente, que eu pudesse ter relações com “as outras pessoas”.

Descobri o sexo e descobri que era bom. Foi com “as outras pessoas”. Que vieram, foram embora e nunca mais voltaram. Essas, estão num lugar das lembranças que não me fazem nem sorrir e nem chorar. Como uma não lembrança. Um afeto distante. E com “a pessoa” foi alguém que veio, partiu, mas voltou. Sempre voltou. Semanalmente, mensalmente, passamos meses sem se ver, quinzenalmente, dormimos juntos (Ah! A primeira noite inteira juntos!), outras noites, outros momentos breves, um rompimento… passaram-se, assim, quatro anos de nossa história tecido a remendos. Já bem difícil não ter lembrança.

Revogamos o rompimento quase um ano depois. Primeiro, foi o sexo saudoso (hummmm… saudade é o melhor tempero do sexo). Depois uma noite inteira juntos. Para mim devia ser aquela coisa despretenciosa. Tão despretenciosa que nem era meia-noite, entreguei o controle da TV e disse que ia dormir e assim o fiz.

Mas fui acordado no meio da madrugada com os afagos (aí era a primeira novidade em quatro anos), com as coisas que sussurrava em meu ouvido (segunda novidade) e ao fim dormimos abraçados (terceira novidade). Mesmo assim, no dia seguinte, me comportei como se “a pessoa” mais uma vez fosse e um outro dia, quando possível, voltasse. Seria apenas uma volta da rotina.

Mas teve a noite seguinte. Eu na minha cama, “a pessoa” na dela. Pouco mais de cinco quilometros nos distanciava. Mas telefone nos colocava lado a lado. Foi a noite de confissões de pouco mais de quatro anos em que apenas os corpos falavam. Noite em que aquela frase de enorme efeito é pela primeira vez pronunciada, sem exigência: eu te amo (novidade final até aqui).

E eu já amava “a pessoa”. Nunca tinha dito, mas amava. Quanto “à pessoa”, desconfiava que me amava, mas jamais esperava nada, quanto mais que ela me dissesse que me amava.

Lidar com isso é bem conflituoso: com o amor, com o primeiro amor (assim dito por outra pessoa), com “a pessoa”, com o amor “da pessoa”, com “as outras pessoas” (que até agora mantive um abismal espaço) e com o amor que posso receber “de outras pessoas”. Conflito adolescente quase aos 30? Ou o amor é sempre assim? Ou quem sabe uma versão de Vinícius de Moraes sobre o amor que ele sentia, quase um sinônimo de sofrer? E tenho sofrido. Tenho estado tão inseguro, pois temos muito presente, mas quando olho pro futuro… Não há futuro. Nunca tinha amado. Dói, como parecia doer em Vinícius de Moraes (tenho mastigado cada poema e composição)

E é o mesmo Vinícius de Moraes que me canta baixinho no meu ouvido, meio que me acalmando:

 

Por isso, meu amor

Não tenha medo de sofrer

Que todos os caminhos

Me encaminham pra você”

 

E como até agora o tempo tem feito isso. O amor, o sofrimento, os caminhos e “a pessoa”. Não sei se há mágica, carma ou destino… mas tem sido isso. E se não for isso, terá sempre “as outras pessoas”, que poderá tornar-se “a pessoa”, ocupando um lugar diferente. Não sei. Dói pensar sobre isso também.