Cantada às avessas

“Té que foi tão bom fugir e te esquecer
Não saber mais nem notícia de você
Com a tristeza consegui me entender
Com a saudade conviver
E com a dor não me doer”

 

Depois que eu te odiei, eu nunca mais tinha entrado em casa com calma. Nunca mais tinha fumado meu cigarro na varanda à tarde, no calor insuportável de que a gente reclamava junto. Depois que eu te odiei, nunca mais tinha entrado no ônibus que me levava pra gente. Nuca mais tinha chorado descaradamente no escuro lotado, depois que eu te odiei. Eu nunca mais tinha escutado uma música nova e querido te mostrar. Eu te odiei até achar que te esqueci, mas só até te achar nas gavetas da minha sala e na poeira da casa deixada só. Depois que eu te odiei, eu achei que tinha gente nova no peito, mas eu ainda tô meio entalada com essa história. Eu nunca mais tinha tropeçado em ti na rua vazia por onde caminho apressada à noite. Nunca mais tinha visitado os lugares desertos de gente e esperança onde a gente ia confirmar que não, nunca teve sentido ou futuro. Depois que te odiei, eu achava que já estava inerte, que já não doía, que já era passado. Mas parece que te odiar ainda não foi suficiente, porque eu tô aqui de novo.

E essa eterna sensação de não ser o suficiente é o que vai ficar. Eu leio e releio os tantos textos que já te escrevi e só penso que era tão bonito, nunca deveria ter terminado desse jeito. “Tô indo, amor, que deus me livre terminar assim”, e você olhando pra mim meio tímido no vídeo, enquanto eu cantava de olho fechado, como sempre. Mas terminou. Eu teimo em remoer, mas na verdade nem começou. E vou eu de novo no ônibus pra história sem fim nem começo, escutando uma playlist composta 62 vezes por uma única música. A trilha sonora que finge ser feliz, mas é tão triste.

Eu me prometo que tô bem. Juro que esqueci. Não sei mais nem qual o som da tua voz, nem lembro mais teu rosto, tua barba densa, ainda bem que você foi embora, se calou, se fez de morto. Aí o som de uma pedaleira de vocal (não sei o nome técnico, nunca soube das técnicas, minha técnica era você), lembrando a segunda voz que você criava pra mim, me esbofeteia na mesa do almoço, e eu choro sem querer. E isso só me lembra que nossa voz nunca encaixava mesmo, eu deveria ter entendido sobretudo esse sinal. Sempre foi minha voz OU a sua, exceto a música do vídeo e a do Tatit.

De quem, aliás, é a música que eu quis te mostrar, depois de tanto tempo.

“Evitar de se espalhar bem que tentei
Mas também não é só comigo, eu reparei
A tristeza é todo mundo e é de ninguém
A tristeza ‘tá no fundo
Da tristeza eu sou o rei”

 

Anúncios

O que não foi

Eu não sei o dia do seu aniversário. Não sei quantos anos você tem. Não sei se você sabe dançar ou no que você pensa antes de dormir. Acho que eu me concentrei tanto na miragem de profundidade em que acreditei que a gente se viu desde sempre que a gente acabou esquecendo as coisas superficiais. Que coisa triste é esquecer as coisas superficiais.
Porque, sabe, no fundo é o amargo de não ter vivido as coisas bobas que vai ficar. “Esse gosto de sabão na boca. Arcoíris já mudou de cor. Uma rosa nunca mais desabrochou.”
Acho que alguém já escreveu um texto sobre isso, mas não importa. Eu até procurei que só, mas não achei e decidi escrever o meu. Porque, sim, o que vai ser difícil de superar é o que não aconteceu. Até porque, pensando bem, nem aconteceu tanta coisa assim. Nem era pra tanto, né?

Mas eu ainda vou dormir muito tempo pensando em que lado da cama você prefere, e olha que eu durmo de rede. Em como você reagiria quando me visse dançando loucamente pela sala. Ou como seria aquele sexo do domingo à tarde, que começa só porque a gente tá sem nada pra fazer e deitou um pouco ao lado um do outro pra ler, mas aí sentiu um cheiro de pele, e quando viu já era (melhor sexo, aliás). Ou como você fica quando tá bêbado. Se você acharia muito idiota quando eu propusesse passar a noite acordada jogando video game ou quando eu achasse genial a gente ficar em casa lendo poesia e cantando num sábado à noite, mesmo que fosse só a gente. Como seria competir pra ver quem faz o café melhor, ou brigar de verdade porque você acha que quase tudo na história da música é melhor que Beatles (sim, Queen é muito bom, mas só uma banda não deixou incólume nenhuma musicalidade produzida depois dela, e não foi o Queen, sorry). Ou o que você acharia de eu ter tantos lápis de cor na minha idade e se você me ajudaria a apontá-los certinho. Porque eu não sei como você é quando tá mal-humorado, se você também tem manias estranhas ou se coleciona alguma tralha. Ou qual o teu cheiro preferido no mundo todo. Ou se você gosta de dormir até muito tarde. Porque você não vai me ensinar a surfar, e eu não vou te encher o saco pra gente ir pular da ponte num sábado à tarde. Porque, como eu não sei quando é seu aniversário, eu não vou poder fingir que não é uma data importante pra mim e fazer um presente de papel e tinta pra te dar num dia que não tenha nada a ver. E eu não sei se você gosta de cafuné ou quando você se cansaria por eu pedir pra você mexer no meu cabelo o tempo todo. Porque a gente nunca vai planejar uma viagem juntos. E porque você nunca me viu chorar de verdade, e não vai saber que eu não sou nem de longe tão forte quanto tento parecer, desse jeito que parece te intimidar; que eu só não sei pedir ajuda, mesmo quando eu quero muito. Porque a gente nunca vai compartilhar nossa solidão.

Essas coisas todas, que eu quis com poucas pessoas na vida. Essas coisas banais de quem tem um amor de muito tempo, e a gente sequer chegou a ser amor. E não é como se eu tivesse acreditado em algum momento que essas coisas aconteceriam. Saber que não é possível não me impede de querer.
Mas aí eu lembro que não tem lugar pra mim que não seja de espera, e, você não sabe, mas eu detesto esperar. Porque eu cheguei tarde demais. E as coisas desandaram cedo demais. E nada garante que, eu chegando antes, seria diferente. E o que parece, pela realidade dos fatos, é que eu mesma fui só uma conquista entre as muitas espalhadas no teu mapa. Só nunca entendi por que destacar tantas tropas por uma terra que você nem queria e de que nunca precisou.

Então eu fico me esforçando pra me convencer de que tudo isso é uma grande viagem minha, e que daqui a pouco vai passar. Deve passar. Tem que passar, ou pelo menos que deixar de arder assim. Vou esperar que essa agonia toda seja só do corte começando a fechar, porque já tá muito claro que não tem jeito além de esperar a cicatriz. Mas hoje, só hoje que minha vida meio que tá explodindo na minha cara, eu seria capaz de jurar que te deixaria me tocar e pediria 05 minutos do teu abraço infinito.

Bagagem

“Desencana, meu amor
Tudo seu é muita dor
Vive
Deixa o tempo resolver
O que tem que acontecer
Livre”

Ultimamente tenho ouvido algumas reclamações sobre como tenho sido dura e amarga. Sim, provavelmente estou, mas não é que eu me sinta bem com isso. Infelizmente, é meu jeito de voltar ao casulo pra reelaborar algumas coisas que eu tô precisando remoer um pouco, foi mal. Acaba sobrando pra todo mundo, eu sei, embora não seja um problema com ninguém em específico. Não rio como de costume. Não faço piada como de costume, falo menos que o normal. Não tenho nenhuma vontade de convívio social, embora continue fazendo os esforços necessários. Então, eu entendo muito quem quiser estar distante agora. Juro que tô tentando ao máximo não magoar ninguém, mas também não tá dando pra ser doce.

Mas é curioso que este momento tem servido pra eu pensar muito sobre algumas coisas que eu quero e preciso mudar, e sobre uma coisa especificamente: por que eu viajo tão pouco, se eu gosto tanto de viajar? Aí eu tenho encontrado algumas respostas que tão me ajudando a começar a repensar o jeito como eu vivo.

Cês sabem que eu amo cremes, né? Que eu sempre disse que, se pudesse, teria um pra cada parte do corpo, que uso pelo menos 03 sabonetes sempre que tomo banho, essas coisas. O total de cosméticos que uso a cada banho comum é em torno de 10, entre xampus, condicionadores, hidratantes, desodorantes, perfumes (sim, tudo no plural). Fazendo um cálculo muito simples, já dá pra saber onde eu perco uma parte significativa do meu dinheiro todo mês. E, por incrível que pareça, é nessa besteira. E, sim, tô me referindo a isso como uma besteira porque nunca tinha parado pra pensar de verdade como isso se relaciona muito com uma cultura estúpida de consumo. Eu, que já li tanto sobre isso e que juro que faço o esforço de questionar os conteúdos que chegam a mim cotidianamente e sei as fortes contribuições que o consumismo dá à manutenção das desigualdades sociais que a gente vive.

Outra coisa que tô começando a reavaliar: eu sempre tento atender aos chamados sociais e dificilmente me nego a sair com alguém. Com muita frequência, quando meus amigos não tem com quem sair (e quando tem também, não é uma reclamação sobre os motivos), ligam/mandam mensagens pra mim, ou pra me chamar ou pelo menos pra perguntar o que fazer (detalhe que eu nem moro em Fortaleza a semana toda). Aí eu parei e pensei que eu mesma nem gosto tanto assim de sair à noite. Tem dias que tô a fim, mas no geral é indiferente ou eu prefiro ficar em casa jogando ou vendo filme. Uma boa parte da minha grana some entre as idas, vindas, bebidas, comidas, etc etc etc envolvidos em sair à noite. Geralmente eu me divirto, mas boa parte do tempo eu só tenho trabalho de achar algum lugar pra ir e gasto um dinheiro doido pra fazer as mesmas coisas de sempre.

Eu não preciso de tantos cremes. Eu não preciso farrear todo fim de semana. A gente às vezes acaba mantendo alguns hábitos por costume ou conveniência, e alguns deles não só não acrescentam nada como se tornam entraves pra gente conseguir fazer outras coisas nas quais sentiria muito mais prazer. Isso parece se estender a quase todos os aspectos da minha vida, pensando bem. Fui mantendo hábitos de que um dia até gostei muito, mas que hoje não importam tanto mais, e alguns são muito nocivos pra mim, inclusive (e talvez principalmente) em relação à minha vida sentimental.

Tô tentando fazer alguns acordos comigo nesse sentido. Sabe as listas que as pessoas fizeram no fim do ano, de objetivos e tal? Então, nunca faço, mas tô tentando, desse emaranhado de reelaboração que foram os últimos meses e que provavelmente serão os próximos mais ainda, sair com algo que eu possa aproveitar. Então eu quero ser uma pessoa mais leve, de tudo. Quero que todas as coisas de que eu preciso pra fazer a próxima viagem formem uma bagagem de um volume só. Isso nunca aconteceu. Geralmente, carrego pelo menos 03 vezes a bagagem de que eu realmente preciso. Pra viajar. Pra amar. Pra sentir. É normal eu pagar excesso de bagagem nos aeroportos. Geralmente pago alguns no resto da vida também.

Então, eu acho que vou tentar trocar um pouco as experiências de vida noturna agitada aos finais de semana e vou juntar grana pra viajar e ter outras experiências. Vou tentar gastar menos dinheiro com coisas das quais não preciso e que não sejam relevantes de verdade pra mim. Vou tentar entregar mais coração nas relações que me importam, e vou tentar ter mais calma antes de escolher quais são essas relações. E tentar não criar sozinha as que não existem e não acreditar nelas e não investir e não me desgastar tanto. E tentar usar a sinceridade que me é tão característica de maneira menos ríspida. E tentar ser parecida com a Jout Jout 🙂

Vou tentar reorganizar a bagagem. Tudo aquilo que eu não puder carregar comigo, junto ao corpo, fica. Tudo que for me cansar mais que ser útil não vai. Tudo que não faz diferença pra como eu vou aproveitar minhas viagens (literal e metaforicamente) eu vou tentar deixar passar. Esse vai ser um exercício muito difícil pra uma pessoa que se acostumou tanto a levar o que não precisava da vida, mas toda mudança exige sua dose de exercício. Talvez assim eu produza menos lixo, cresça mais e comece a me interessar um pouco mais pela vida. Vamo tentar pra ver no que dá.

E o mal humor passa daqui a pouco, eu acho hehehe. Quem quiser, pode esperar pra ver.

P.S.: eu sei que aqui ultimamente nunca tem nada de socialmente relevante e que esse blog tem mais reclamação individualista que alguma contribuição para o mundo, mas, olha, tá na descrição do blog, né? Tem mais um monte de coisa interessante por esse mundo chamado internet, pode procurar. Talvez daqui a pouco a gente volte a escrever coisas sobre os acontecimentos sociais, mas neste momento tá todo mundo por aqui em reforma.

Sobre ficar banguela

Eu não sei exatamente quem culpar, sabe? Eu queria ser dessas pessoas que conseguem culpar tudo no mundo, inventar compulsões pra se desresponsabilizar, dizer “ah, juro que eu tento controlar, mas não consigo” (e aqui eu quero abrir a ressalva de que sei que há casos e casos, mas ainda tô com o Rossano Cabral na análise que ele faz de atualmente muita gente se vale disso porque é menos doloroso; a prevalência de transtorno não é tão alta quanto a frequência desse tipo de explicação, fica a dica). Simplesmente não tento mais controlar. Preferi tentar conviver com isso. Eu não sei se foram os músicos que minha geração ouviu, eu não sei se é a história da humanidade ser uma bosta, eu não sei dizer exatamente por quê, mas eu sempre me identifiquei como uma pessoa triste.

Eu ouvia Trio Irakitan, Tom Jobim, João Gilbeto, Caetano Veloso, Vinicius de Moraes, Chitãozinho e Chororó, Chico Buarque e Legião Urbana (entre outras coisas, como funk de protesto) quando era criança. Tô falando criança mesmo, 6, 7, 8 anos. E não era só ouvir: eu me identificava com aquilo, com aquela tristeza toda dissolvida em poesia e melodia. Na adolescência, acrescentei Radiohead, Travis, Raul Seixas, Alanis Morissette, Pato Fu, Los Hermanos. Mais tarde, Damien Rice, Amy Winehouse, Coldplay, The Magic Numbers, Arctic Monkeys, Chico César (eu sei que ele não é triste, mas não poderia não citá-lo na lista), Mônica Salmaso. Eu escrevia textos, entre prosa e poesia, muito tristes, com 10 ou 12 anos. Lembro que uma prima minha uma vez duvidou que eram meus mesmo e me fez escrever uns 04 ou 05 seguidos pra provar. E eu tinha tanto material guardado que consegui escrever.  Um dos meus livros preferidos na vida é “O apanhador no campo de centeio”.

Sim, é esse o tipo de gente que eu sou. Quer dizer que eu sempre sou triste e estou chorando, o tempo todo? Que eu tô sempre mal, que nada me faz achar graça? Não, quer não. Quer dizer que, mesmo que eu esteja alegre, cantando, rindo, dançando, está lá. Quer dizer que é muito difícil que se passe um dia sem que eu me lembre de todas as coisas estúpidas que eu já fiz na vida, e que elas são muito mais pungentes que qualquer coisa legal, inteligente ou amável que eu possa ter feito. E isso me faz sempre sentir mais estúpida, e eu fico achando que sou tão retardada (no sentido real, de atraso mesmo) que ainda tenho 13 anos, porque é isso que eu ouço sempre: que pessoas maduras aprendem a lidar com essas situações. Se eu não aprendi, é porque sou imatura, né?

Eu não gosto de viver como vocês todos parecem gostar, sabe? Na verdade, olho muito pra vida com essa sensação de “enquanto for interessante, eu fico”. Tô ficando, por enquanto, mas todo mundo que me importa já ouviu pelo menos uma vez na vida que não contem que isso vá ser até meu corpo não aguentar. Vai ser até eu não aguentar, e honestamente eu mesma nunca terei como dar garantias de quando vai ser isso.

Aí que uma das coisas que torna menos pesado estar viva é encontrar pessoas em que eu acho que posso confiar, com quem eu me sinto segura, ou, como diz o Deleuze, em quem eu consigo identificar essa centelha de loucura, com a qual eu posso me identificar. Aí que cada vez que uma imagem dessas se desfaz é um pouco mais difícil me levantar no outro dia. Todas as minhas relações significativas que passam por algo muito marcado, ou se transformam ou terminam (acho que as de todo mundo, anyway). E se as minhas terminam, elas definitivamente terminam. Se eu deixo de falar com alguém que amei muito, é pra pessoa nunca mais me ver propositalmente, em geral, e muitas vezes é sem momentos de explicação e esclarecimento. E isso é por quê? Porque eu sou uma pessoa cruel e fria? Um pouco, talvez. Mas é também porque é sempre muito muito difícil assumir que eu preciso me distanciar de alguém que já viu coisas muito importantes a meu respeito. Ou porque eu tô tão louca e tão perdida no meu medo de viver que eu não sei mais o que fazer.

Por conta desses episódios de não saber o que fazer, eu já fui muito ruim com algumas pessoas, inclusive com algumas que nem de longe mereciam. Eu sei disso, eu me arrependo amargamente, e eu nem insisto porque sei mesmo que nunca vou ter como me redimir, mas hoje eu realmente me esforço muito pra não ser ruim nas poucas relações que eu tento conservar ao longo do tempo.

Shade costuma dizer que eu tenho opiniões muito firmes sobre coisas banais. Bem, cada vez que eu compartilho uma dessas opiniões com alguém, eu tô botando pra fora um pouco dessas besteiras que eu fico pensando e fazendo quando tô sozinha (que é tipo 70% da minha vida). Mesmo quando eu tô ao lado de alguém com quem me sinto muito à vontade, eu passo muito tempo em silêncio. Aí você vem e se sente no direito de se identificar com todas as minhas banalidades. Pensa a mesma coisa sobre tudo que eu já pensei, ama todas as besteiras que eu amei sozinha a vida inteira, pensa o mesmo que eu sobre as coisas que eu nem sabia que outras pessoas pensavam, escava minhas fraquezas pra ser igual.

Isso depois de eu insistir que não gosto que as pessoas se aproximem. De eu ser chata mesmo, de não dar atenção a todo mundo, de não corresponder à altura ao carinho e à atenção que me dão quando eu não tenho intimidade, de recusar insistentemente os convites até parar de recebê-los. Eu não faço isso por acaso, na maioria das vezes. Eu faço porque eu não quero ter muita gente próxima, porque lidar com todas essas coisas em uma relação é sempre muito difícil pra mim. Mas aí você vem, e mesmo depois de ouvir todos os discursos sobre a minha chatice, sobre como eu não gosto e trato mal a maioria das pessoas, sobre como eu não sei lidar com as coisas simples que todo mundo enfrenta todo dia, você insiste mais. Tenta me deixar à vontade e me fazer sentir segura. Pra simplesmente dizer depois que não importa tanto, quando finalmente essas coisas acontecerem.

Vocês que conseguem viver a normalidade do cotidiano sem muito sofrimento provavelmente não entendem o efeito devastador que esse tipo de coisa tem pra gente dramática e chorona, pra quem tudo é apenas uma grande pegadinha da vida, como eu, sabe? Vocês acham que quando forem embora ou quando deixarem claro que nem se importam tanto assim, a gente vai aprender a lidar e vai sobreviver, e provavelmente é isso que vai acontecer, em parte. Porque eu mesma não vou morrer por conta disso, mas esse dente que você arrancou não vai nascer mais, e o sorriso por aqui vai ficar torto pra sempre.

Então não é como se eu esperasse muito amor de todo mundo. Pelo contrário, eu espero sempre que as pessoas sejam  ruins, ou no máximo desinteressantes, por isso quero distância da maior parte delas. Mas quando você insiste em fazer parte da minha vida eu realmente gostaria que você tivesse mais consideração pelo que eu sinto que simplesmente resolver que a brincadeira perdeu a graça. Eu acho que o que me faz uma grande trouxa na vida é exatamente isso: querer que algumas pessoas tenham por mim a consideração que eu tenho por elas. E, olha, nem tô dizendo esperar, que no fundo eu sei que cada pessoa tem pelas outras a consideração que quer, não a que é esperada; mesmo assim dói. E a pior parte é saber que sou eu mesma quem permite que essas coisas aconteçam. Por muito tempo eu achei que merecia isso. Hoje não.

Eu sei que vai parecer que esse texto é sobre uma pessoa específica, mas eu já passei TANTAS, TANTAS VEZES pelas mesmas situações descritas aqui, com relações de tantos tipos diferentes, que, acreditem, não é. É só que hoje foi mais um dia difícil, essas coisas pesaram mais, tá mais difícil me concentrar no que eu realmente deveria fazer. Precisava ver se ao menos o peito fica mais leve, já que a cara tá tão torta. Eu queria dizer que chega, e escrever é minha forma de elaborar isso.

Sobre a Música

” And I didn’t understand

When you reached out to take my hand

And if you have something to say

You’d better say it now

Cause this is what you’ve waited for

Your chance to even up the score

And as these shadows fall on me now

I will somehow”

Eu nem tenho certeza de qual o objetivo mesmo deste texto. Acho importante esclarecer isso desde já pra que ninguém perca tempo que não quer perder. Acho que antes de tudo eu quero organizar alguns pensamentos, e às vezes parece mais fácil fazer isso escrevendo.

Esses dias, por muitos motivos diferentes, eu tenho pensado em como a gente encontra amor pela vida de diversas maneiras. Aí a gente planeja um pouco, sonha um pouco (muito, no meu caso). Só que a gente nunca conta que as circunstâncias podem mudar completamente, ou que pode ser que a gente encontre amor em circunstâncias muito adversas, nas quais a gente mesmo sempre jurou que nunca se meteria. Porque a vida está aí, acontecendo. E aprender a lidar com o que é possível de cada amor é muito difícil.

Hoje eu assisti a “Once” de novo, e eu acho que esse é um filme que representa muito bem isso de nem todos os amores serem possíveis da forma como nosso desejo pede. E quando essa coisa de um amor não poder ser o que a gente quer dele acontece, eu fico me perguntando, a gente precisa mesmo abrir mão da outra pessoa por isso? Sei lá, eu entendo quando é uma paixãozinha pela qual a gente sofre, que é melhor se distanciar em alguns casos… Mas e se for aquele encontro que você sabe mesmo que não corre muito risco de ter outro semelhante na vida? Eu penso que talvez dê pra transformar o amor em música, como o que acontece no filme.

Há um tempo eu tinha pensado em escrever um texto sobre relacionamentos abertos, comparando fazer sexo a compor junto. Isso porque compor, pra mim, é algo que exige muito mais abertura, exposição e cumplicidade que fazer sexo. Mas bem, no meio do caminho houve tanta confusão sobre tudo isso na minha cabeça que, embora eu continue pensando dessa forma, ficou difícil escrever o texto.

O Zeca Baleiro tem uma música em que ele diz que transformar lágrima em canção é um milagre. Eu, que não tenho nenhum traço de religiosidade, gosto de crer nesse milagre específico. E talvez essa seja uma maneira de não deixar um amor morrer quando ele não pode ser realizado do jeito, vamos dizer, romântico tradicional. Não vai deixar de ser amor, e é impossível calar um desejo só com isso, mas pelo menos é um jeito de deixá-lo vivo. Um jeito dolorido, sim, mas penso que em alguns casos soluções indolores não estão no campo do possível.

Como diz meu amado Chico César, “o carneiro sacrificado morre, o amor morre. Só a arte não”

De todas as maneiras

De todas as maneiras que há de amar

Nós já nos amamos

Com todas as palavras feitas pra sangrar

Já nos cortamos

Agora já passa da hora, tá lindo lá fora

Larga a minha mão, solta as unhas do meu coração

Que ele está apressado

E desanda a bater desvairado

Quando entra o verão

dente de leão

Ela com ele, tantas certezas. Casamento marcado, família unida, vida junto pra sempre. Até outro ele passar, e ela se confundir. Camas repartidas, vidas se desviando, acusações, culpas, distância. Um dia, reaproximação serena.

Ela com ela, tão linda que ela era. Aprendendo o novo, leveza de quem não sabe que não podia, amizade, cumplicidade, troca, corpo, carinho. E então outros eles, outras elas, tristeza e confusão. Aí distância e frieza, covardia e compreensão. Um dia as coisas se ajeitam.

De novo ela. E mais ele e outra ela. Às vezes juntos, os três, outras separados, dois a dois. Pra cada dois, seus sentimentos, suas dores, suas delícias. Pra cada um suas dúvidas e certezas, seus desejos e segredos.

Eram ele e ela. Com dificuldade, no começo, ele só pra ela, ela só pra ele. Depois ela com ele, com outros eles, com elas. Ele com outras elas, as dúvidas, as novidades, os medos, as incertezas. O diálogo perdido, pra depois recuperar a cumplicidade. O medo se esvaindo na compreensão, “eu sei como é, já estive no seu lugar; teu medo não me assusta”.

Ela e eles e elas, só em fantasia, do que foi dito e não deveria, do beijo embriagado, do desejo volátil.

Acho que a maior parte das pessoas (pelo menos das que eu acho que leem este blog) já passou por alguma situação parecida com alguma dessas. Eu passei por todas e mais um monte que não estão aí por motivos de: não teria espaço. Todas elas envolvem desejo e amor, o de quem escreve e o de quem foi descrito. Ultimamente tenho deparado com textos falando sobre amor e desejo de diversas maneiras, e resolvi dar meu pitaco por aqui. Não porque eu entenda muito e possa ensinar. Não sei se acredito que alguém possa ensinar essas coisas; mas porque se tem duas coisas que eu sei que faço na vida é amar e desejar. Desajeitada e torta, porém muito. E porque eu acredito que a gente só consegue criar outras possibilidades quando consegue ver que elas existem, lendo, praticando ou como quer que seja, eu também acho importante dizer que elas existem. Aí quero deixar logo claro que não acho que essa seja A ÚNICA possibilidade que existe, pra não vir ninguém dizer depois que eu tô limitando as maneiras de ninguém.

Bom, nessa história, eu penso que escolhi alguns caminhos que pra mim são menos difíceis e mais honestos comigo. Talvez essa tenha sido a escolha mais sábia que já tomei em relação a mim mesma. Se teve uma coisa que tive que assumir pra mim pra conseguir lidar de maneira saudável com o meu desejo, foi: ele não é estável. Não importava o quanto eu amasse alguém, e muitas vezes esse amor era relativamente constante, permanecia; meu desejo passeava de inteligência em inteligência, de barba em barba, de seio em seio, de boca em boca, e eu teria que aprender a lidar com isso. Teria que ser muito franca comigo mesma em relação a isso se quisesse ter alguma sanidade nos meus relacionamentos.

Não vou dizer que essa foi uma decisão fácil. Não é pra todo mundo que se pode assumir esse tipo de coisa. Muita gente não entende, porque, enfim, amor romântico é o que há, a única solução, é a salvação das almas perdidas. Até assumir pra si mesma essas coisas é difícil, porque a gente aprende a vida inteira que tem UM jeito de amar, e que tudo que foge disso é safadeza, ainda mais sendo eu mulher. E não se enganem: eu acho legal ser carinhosa, ser afetiva, cuidar, ser companheira, etc. Só acho que isso não significa amor romântico, que não preciso me limitar ao que ele permite em seu script e que há outras possibilidades de se exercer que podem, sim, incluir tudo isso, se assim for de vontade mútua.

Também não tô fazendo aqui nenhuma pregação contra o amor romântico, hein? Você acha que é isso mesmo, que só dá certo se for assim, porque é como você aprendeu e hoje é difícil se desvencilhar dos valores, ou mesmo porque você pensou muito e já passou por muita coisa e acha isso melhor, ou só porque você quer mesmo? Vai fundo! Mas deixa eu te adiantar que se você é essa pessoa que acha que qualquer coisa que não é isso é imaturidade ou falta de caráter, você é caga regra sim. Que tal se cada um puder fazer seus relacionamentos funcionarem do jeito que bem entendem e ninguém doutrinar ninguém, hein?

Pois bem, todas essas coisas claras, meu primeiro pensamento foi: ok, respeitarei meus desejos e meus limites; mas haverá outros desejos pra considerar também, além dos meus. Como é que eu vou lidar com isso? Porque quando você quer respeitar seu desejo e o desejo do outro, por mais honesto que isso seja, alguns exercícios precisam ser feitos.

O primeiro deles talvez seja pensar que ninguém te DEVE amor, e muito menos desejo. Você pode dar o quanto quiser (ebaaaa), mas isso NUNCA criará uma dívida para a outra pessoa. Ela pode olhar amanhã pra você dizer que quer ir embora, e eu duvido muito que haja alguma cobrança que você possa fazer pra reverter isso, caso o desejo e o amor dela já andem passeando por outras praças. E você pode (e provavelmente vai) ficar triste por conta disso? Claro que sim! Não é que você não tenha o direito de sofrer. Pode sofrer? Pode! Chorar? Pode! Cantar “Não aprendi dizer adeus” no karaokê? Pode! O que não pode é dizer pra outra pessoa quem ela TINHA QUE te amar por tudo que você já fez, etc etc etc. Quer dizer, você pode dizer isso também, pode fazer o que quiser com a sua vida, na real, tô falando mais no sentindo de ter efetividade pra situação.

Se relacionar é risco. Se relacionar consciente de que o desejo do outro/da outra é dele/dela, é risco maior ainda. Ninguém é obrigado a encarar uma relação dessa maneira, mas se você resolve encarar, talvez seja bom pensar que aquilo que sai de você, que você entrega, sai sem nenhum compromisso de volta.

Pois é, e se o que a outra pessoa quer viver não for isso? Bom, aí precisa haver negociação, não tem jeito. “Ah, mas como é a negociação; quem tem que ceder; eu não posso fazer concessão?” Olha, aí é algo que só de dentro do relacionamento dá pra saber. Não tem como alguém dizer uma fórmula que vá funcionar pra todo mundo. Eu sei que essas coisas são meio óbvias, mas eu acho importante dizer porque tem muita gente que lê esse tipo de texto achando que no meio dele vai aparecer uma solução mágica pra sua vida. Não vai. Nem aqui nem em canto nenhum.

Depois, é aprender a lidar com as frustrações, que elas acontecem sempre, em todos os campos da vida, sem exceção. Por que justo com amor e desejo isso seria diferente? Não é. Você pode planejar, pode sonhar, pode colocar nome nos cachorros e nos filhos que ainda não tem, pode decorar mentalmente a casa que ainda não comprou pra vocês morarem juntos/juntas, e mesmo assim nada dar certo, a pessoa mudar de ideia. Significa que ela é uma ou um grande filha/o da puta? Você pode ver assim, mas não vai mudar muita coisa. Significa, na verdade, que muita coisa acontece o tempo inteiro com cada pessoa, e que você nunca vai ter o controle total sobre isso, então talvez seja bom considerar se tentar é algo com que você consegue lidar.

No caminho que eu escolhi trilhar nesse lance de relacionamento, eu escolhi ser, antes de qualquer coisa, companheira e cúmplice. Eu quero ser pra pessoa com quem estou alguém pra quem ela possa dizer de verdade como se sente, mesmo que isso magoe às vezes. Quero fazer sexo também? Quero, lógico; mas pra fazer sexo eu não preciso estabelecer um relacionamento, preciso? Então eu quero relacionamentos que juntem cumplicidade, sexo e liberdade, tanto pra mim quanto pras outras pessoas. As maneiras como isso vão acontecer podem variar muito, dependendo de quem são essas pessoas, mas pra mim o que importa já tá claro. Funciona desse jeito pra todo mundo? Jamais, de maneira nenhuma. Funciona pra mim. Isso me possibilitou e me possibilita viver situações que muita gente considera surreais, bizarras. Eu as considero uma possibilidade, dentre as tantas que existem.

Ah, do jeito que eu tô falando nem sei se parece interessante, mas parece super fácil? Não sei se parece, mas definitivamente não é. É difícil e você sofre do mesmo jeito. Acho que outro grande ponto pra um relacionamento, qualquer que seja, dar certo, é a gente entender que esse lance de se livrar de sofrimento não existe, que a gente precisa aprender a lidar com ele.

E aí aos poucos dá pra ir se ajeitando, achando os jeitos. Aos poucos algumas pessoas vão entendendo, outras não. Algumas vão ficando pelo caminho, outras vão caminhando com você. Enfim, esse post surgiu de uma conversa sobre o tempo e a eternidade com uma grande amiga que tá pensando em relacionamentos abertos, e que eu acho que nem vai lê-lo, mas o que eu tentei conversar com ela e queria dizer mesmo é que a vida é muita e é múltipla. Nenhum relacionamento é uma certeza eterna, e se permitir viver como a gente tem vontade, mesmo diante de todos os contras, talvez seja a única alternativa pra quem sabe que não vai se adaptar, né?

O menino dos olhos

Ele chegou num dia daqueles em que você acorda e passa o tempo todo pensando “puta que pariu, não devia ter saído da cama”. Naqueles dias de pouca chuva e muito calor, em que você tem muito a fazer e pouco interesse pelo que vem pela frente. Mas daí que, entre uma fala repetida e outra, eu fui vendo aquele cara que parecia um tanto se destacar do resto dos rostos que gritavam “quero ser igual”.

Eu ouço música como algumas pessoas fumam, sabe? Pessoas fumantes geralmente tem aquele hábito em ambientes cheios e/ou fechados, de pedir licença ou se afastar de mansinho pra curtir seu cigarro. Pelo menos as pessoas fumantes que eu conheço tem. Eu faço isso pra ouvir música quando o resto ao redor tá muito chato. E no intervalo entre as reuniões chatas daquele dia entediante, enquanto eu tentava me salvar ouvindo Amy Winehouse, ele veio, com aqueles olhos que me pareceram sempre marejados.

Mais tarde eu descobriria que o menino traz mesmo o mar nos olhos e na alma. Mais tarde eu descobriria também que os olhos que me encantaram tanto como canto já afastaram outras pessoas. E pra mim nunca deixa de ser surpreendente essa discrepância entre o que eu acho estranhamente lindo, enquanto o resto do mundo só estranha. Sei que me prendi nos olhos dele, e até hoje eles me servem de bússola de vez em quando.

Daquele dia em diante, a gente foi construindo esse tipo de coisa que se costuma chamar amor. Acho que porque meus olhos e alma são também de mar, ou porque a gente meio que parece ter sido formado por caminhos muito parecidos, embora nossos passos tenham sido tão diversos até se cruzarem. (Essa história de que gosto de nerd nunca foi conversa minha. Eu acho algumas pessoas muito interessantes. Não costumo atribuir a elas rótulos logo de cara. Coincidentemente, essas pessoas geralmente são taxadas de nerds, mas juro que não é critério. Só que ele é intitulado nerd também, aí coincidiu e, né?)

Eu sei que a gente foi indo, foi mais que “lindo, novela, missa e gibi”, e um dia a gente foi parar no Maranhão. Aliás, era esse o motivo das benditas (malditas, no caso) reuniões do dia chato. E aquela viagem teria sido um infernotédio, se a gente não a tivesse salvado subvertendo seus motivos. E eu acho que é isso que me encanta no meu menino-íris: com ele, eu aprendi a aperfeiçoar todas as minhas capacidades de subversão, dos papeis de gênero aos programas de entretenimento. Mas, olha, eu num tô falando que aprendi dele, que ele me ensinou. Tô falando que a gente aprendeu junto, experimentando, acrescentando e jogando fora, e eu acho isso muito mais gostoso. Com ele eu aprendi um jeito muito nosso de ser livre.

E aí que hoje ele é daqueles que minha mãe chama de filho, e eu chamo de irmão. Daqueles que dançam “a dança do maxixe” na sala de casa, na noite de réveillon, fazendo a mãe passar mal de rir. Hoje eu tenho a certeza de que, não importa onde estejamos, sempre que nos encontrarmos haverá lugar pra nossa boa e velha cerveja ou pro nosso café, santo de cada dia, e pras nossas conversas – como diria a mãezinha: nossas conversas esculhambadas. E haverá sempre espaço pra gente caminhar junto em silêncio. Eu desde cedo desconfiei de que amor e intimidade verdadeiros só rolam quando você sabe dar espaço pro silêncio do outro. Não é dar aquele espaço ansioso e nervoso-porque-obrigatório. É quando estar ao lado em silêncio faz tanto sentido quanto conversar ou morrer de rir junto.

Até hoje a música que eu escrevi no caderno dele, que nem é dos meus autores mais amados, faz todo sentido pra gente, porque ainda “a gente vive junto e a gente se dá bem. Não desejamos mal a quase ninguém. E a gente vai à luta e conhece a dor. Consideramos justa TODA forma de AMOR.”

E os olhos dele continuam sendo meus também.