Vá a merda, que eu tô soltando a franga

Foi um período de um longo silêncio. O que vou colocar aqui me expõe completamente, mas é cômodo pra uma cambada sanguinária que eu me cale. Ah, depois de tanto tempo com alguns gritos abafados, que retalhou o que havia de mais íntimo em mim… Rá, rá… tenham cuidado seus machistas escrotos, sua cambada de heterossexuais com a sua boca suja de falso moralismo e com a sua fé fraca e abalada! Porque agora, depois de atravessar esse calvário, a minha fé é cega e a minha faca é amolada!

Desde que eu me entendo por gente, sou homossexual! Tinha trejeitos, era afeminado, gostava mais da Xuxa do que do Rambo, gostava mais de brincar de casinha do que jogar bola. A violência que o machismo imprimiu em mim, remota das relações mais primárias. Com os meus familiares, com as professoras de ensino pré-escolar e primário, com outras crianças como eu era. No meio a tudo isso, nunca me ensinaram a reagir. Nunca aprendi a reagir também. Levei esses açoites normativos do ser macho silenciosamente. Tornei-me e fui tornado frágil. Convenientemente dócil.

Tanta docilidade ainda quando criança, com cinco ou seis anos de idade, fui vítima da forma mais vil que uma pessoa poderia. Ser criança, ter um quadril grande, usar sunga e ter trejeitos não me tornava um corpo-objeto acessível. Por mais que eu já tivesse desejo pelo mesmo sexo, era um desejo infantil e prematuro. Eu estava fazendo o que qualquer criança da minha idade fazia. Eu estava brincando e não me exibindo e tampouco provocar alguém. Não tinha em mim um rótulo escrito: abuse! Mas fui encurralado e aconteceu. Emudeci.

Fui crescendo. Mesmo sendo tão visível o que eu era, os comentários entre as pessoas que eu mais amava exalava o mais pútrido discurso homofóbico. Aquelas palavras me feriam mais que uma lâmina transpassada por todo o meu corpo. Diante de tudo aquilo, só aprendi a me reprimir e a emudecer. Cheguei tantas vezes a me odiar porque era assim! E com todas as minhas características, que me acompanham desde sempre, uma outra pessoa, só que dessa vez muito próxima, também pensou que eu era um corpo-objeto. E no mais covarde jogo de poder, eu, com apenas 14 anos de idade, fui abusado novamente. Muitas e muitas vezes pela mesma pessoa. Mais uma vez, emudeci.

Dos 14 aos 24 anos, vivi no mais completo estado de reclusão do que era. Não tive namorinhos. Não tive ficas. Não paquerava. Eu tinha muita vergonha de mim, do meu desejo.

Apenas com 24 anos de idade, resolvi que era o tempo de desabrochar e encarar uma vida sexual de forma consensuada. Conheci o rapaz pelo qual fui apaixonado dos 24 aos 30 anos. Vivemos a maior parte desse período apenas entre um encontro e outro. Rompemos. Também por causa do machismo (dele). Já superado dessa história, ele retorna com uma proposta de amor. Consensuamos como seria essa relação. Eu fui o melhor que pude ser: proporcionei sigilo, fiz da minha casa a casa dele, “emprestei dinheiro”, dei dinheiro quando ele me dizia estar precisando para algo muito sério. Não porque era burro e idiota, mas numa relação é assim, a gente vai cuidando um do outro.

Eu assumi o risco de viver um relacionamento com uma pessoa que não assumia comigo uma relação homoafetiva por amor! Poderia ter sido muito bom, se tivesse havido respeito mútuo. Mas da parte dele teve apenas descaso, falta de cuidado, desamparo, imprudência e o mais profundo desrespeito comigo e com o que sentia. Tão grande era o que ele me fazia (e sim, eu permitia, mas eu estava apaixonado – meu único erro) que foi causando um dano psicológico em mim. Um dano permanente.

Ansiedade, pânico, depressão, surtos… E tantas vezes eu tentei conversar, dizer que não estava bem, dizer que queria diferente. Fui silenciado! Tão cretino, mal-caráter e cínico ele era, que na medida que eu proporcionava as coisas a ele, sabendo que era eu me movendo para dar um caráter de seriedade à relação, que ao invés de chegar pra mim e dizer: “cara, eu não posso, ou não quero ter um envolvimento sério com você”, ele recebeu tudo que eu tinha para dar como seu eu fosse realmente a pessoa pela qual ele estava se envolvendo seriamente. Nessa relação destrutiva, a única pessoa que foi destruída fui eu: perdi emprego, perdi a casa que morava, perdi saúde mental e física… Estávamos juntos. Ele testemunhou tudo isso. Todas as minhas quedas. Depois que eu perdi tudo e nada mais tinha a oferecer, sim, o óbvio, ele rompeu comigo.

Ferido. Eu passei a me odiar novamente. A odiar a minha vida. A odiar quem eu sou. Depressão. Muitos surtos. Muitas tentativas de suicídio. Eu apenas não desejei, mas tentei me eliminar. Tratamento. Terapia. Muitos remédios. Elaborações… O tempo vai passando, não sem doer, mas vai passando…

Ontem a noite, conversando com meu pai, pessoa a quem sou muito grato por toda a força e pelo abrigo que ele me deu, levantei a hipótese “e se eu começasse a me relacionar com outra pessoa…”. Bastou dizer isso que a minha atual fortaleza (a minha relação com o meu pai), ruiu!

Sou o homossexual aceito pela família, desde que eu não envolva os meus relacionamentos com ela. Qual o sentido de ser homossexual então? Reprimir? Calar? Esconder?

NUNCA MAIS!

Eu reagi. Eu gritei.

E reagi não por causa do amor a uma pessoa que ainda nem existe em detrimento de meu pai. EU REAGI POR MIM! POR QUEM EU SOU! A QUEM QUER QUE SEJA, ENGULA: EU SOU HOMOSSEXUAL! VOU CHAMAR A QUEM QUER QUE SEJA DE MACHISTA E HOMOFÓBICO SE OUSAR A QUERER ME GUARDAR NUM ARMÁRIO, NUM BOEIRO, NUMA LATA DE LIXO! EU NÃO ACEITO MAIS ESSE LUGAR! HOJE EU TENHO ORGULHO DO QUE SOU! EU ME AMO DESSE JEITO! EU ME RESPEITO DESSE JEITO! E EU VOU SER DESSE JEITO E PRONTO!

Se para os meus pais, minhas avós, tios e tias, primos e primas, amigos e amigas for incomodo ser o que sou: AFASTE-SE! PORQUE VOU SER O QUE SOU E VOU FICAR APENAS COM QUEM QUER QUE EU SEJA O QUE EU SOU! VÁ A MERDA, QUE EU TÔ SOLTANDO ESSA FRANGA DE VEZ!

EU PREFIRO PASSAR FOME, NÃO TER PARENTE E NEM ADERENTE DO QUE NEGAR O QUE EU SOU! SOU GAY! E DAÍ? É UMA NECESSIDADE DE AUTO AFIRMAÇÃO TÃO URGENTE COMO BEBER ÁGUA, QUANDO SE ESTAR COM MUITA SEDE!

E por mais que eu esteja soltando todos os gritos, alguns ainda estão camuflados! Aos que abusaram de mim, se não me trouxesse um problema muito maior, porque sim, O NOSSO JUDICIÁRIO É MACHISTA E HOMOFÓBICO, comedor de criancinha, eu abria o berreiro e começava a divulgar nomes, com foto e com a faixa: CUIDADO! MACHISTA ESCROTO SUPER PERIGOSO! Ao canalha, cínico, escroto e mal caráter que abusou da minha boa fé, esse eu tenho vontade de dizer aos quatro cantos quem é! Só pra pagar todo o sofrimento que passei e ainda estou com as sequelas! Não faço, porque divulgar o nome com quem você teve uma relação homoafetiva em clandestinidade se configura em crime contra a honra, como difamação! PALHAÇADA! E não, eu não devo nenhum respeito a ele. E se eu não tivesse que sofrer um processo por desonra, quando eu não tenho nem como processá-lo porque sofri enormes danos psicológcos, morais e materiais, EU PANFLETARIA SUA FOTO E SEU NOME PELOS QUATRO CANTOS DO MUNDO! Não por achar vergonhoso ter uma relação homoafetiva, mas por ter vegonha de como uma pessoa age de uma forma tão cruel e achar ainda que é legítimo.

Pra que tanto ódio Tiago? ACHOU POUCO O QUE JÁ PASSEI? É ÓDIO MESMO! BEM FUNDAMENTADO E MARCADO NA MINHA HISTÓRIA E NO MEU CORPO! VÁ SE LASCAR COM O SEU DISCURSO PAZ E AMOR! O CORPO QUE APANHA UMA HORA GRITA! E EU ESTOU GRITANDO!

Que me desculpem meus amigos e amigas heterossexuais, meu ódio não é contra vocês. Meu ódio é dessa heterossexualidade posta como norma! Meu ódio é desse machismo que nos violenta todos os segundos, marcando nossos corpos, nossas mentes e nossos corações! Uma violência que é dolorida em suas mais variadas expressões: da pancada às suas formas silenciosas.

EU ESTOU ROMPENDO COM A CONVENIENTE DOCILIDADE! COM OS DESFARCES! QUEBRANDO AS PORTAS DOS ARMÁRIOS! RASGANDO O CASULO! EU ESTOU DECLARANDO UMA GUERRA MUITO SÉRIA AO MACHISMO E À HOMOFOBIA! E se isso dói em você, acho muito pouco! EU QUERO MAIS QUE TODO (OU TODA) MACHISTA E HOMOFÓBICO(A) SE EXPLODA, e por favor se você é isso, mantenha distancia de mim.

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Amor em Tempos Sombrios

“Amamos mais os nossos desejos, do que os objetos dos nossos desejos.” escreveu Nietzche na segunda metade do século XIX, período de expansão do sistema capitalista.

Tal sistema, fortemente associado à desigual distribuição de renda e poder, é precussor não apenas da exploração econômica, mas de uma exploração cultural também. Genericamente, cultura é todo um complexo de relações que inclui o conhecimento, os costumes, os desejos e todos os hábitos e aptidões adquiridos pela humanidade não somente em família, como também em sociedade. A forma de vestir-se, de falar, de se expressar e de amar são elementos culturais. Nessa simbiose entre economia e cultura, as relações entre humanos no sistema capitalista são marcadas pelo individualismo e pela produção permanente de desejos, de carências e de falta, em que o outro perde o seu estado de humanidade e torna-se coisa a ser consumida. Depois de satisfeita a necessidade, como tudo que é produzido e consumido nesse sistema, é descartada.

O capitalismo moderno altera drasticamente não apenas a esfera do trabalho, da produção e do consumo de bens materiais, mas também das relações entre os humanos. Os afetos e as relações interpessoais são impregnados pelos repertórios do mercado e pela lógica do cálculo, desempenho e da racionalidade econômica. Assim, o sistema capitalista penetra muito mais profundamente em nossa existência, parafreseando Foucault, filósofo contemporâneo.

O estilo afetivo no capitalismo moderno torna-se um conjunto de práticas culturais formadas por esquemas de compreensão, práticas sociais e técnicas ajustadas a apreender e gerir os afetos. Somos sistematicamente forçados a manejar as emoções, com aspiração única de autorrealização. São tempos de auto. Centralidade no eu. Tornando-nos seres competitivos para a posse de bens e formas de bem-estar socialmente almejados: autorrealização, desempenho e êxito não apenas no mundo das empresas, mas também nas relações amorosas.

Na configuração social dos relacionamentos amorosos da contemporaneidade é fácil notar o poder de estruturação e de enquadramento dos modos de agir e pensar do mercado. O espírito e a lógica das relações seguem claramente princípios típicos da racionalidade da esfera da troca de mercadorias e do mercado capitalista, tais como abundância, escolha ampla, valor, competição e desempenho. O resultado, como afirma a socióloga Illouz, é um vocabulário de afetos exclusivamente ditado pelo mercado.

A mediação da cultura capitalista na esfera das trocas amorosas alça ainda o processo de construção de subjetividades encenadas e objetificadas. Perfis de Facebook, Instagran. O sistema capitalista introduz um processo de racionalização dos afetos, incorporado, inclusive, pela psicologia e os credos terapeuticos. Ocorre, então, um vasto processo de racionalização das relações íntimas.

Quais as consequências disso? O desenvolvimento crescente de um maior domínio e autocontrole dos impulsos emocionais, consolidou uma despersonalização dos sentimentos, ou seja, a ideia de que os sentimentos podem ser desligados do sujeito para controle e esclarecimento. A omnipresença de modelos económicos passam a dar forma ao eu e suas emoções. Nos privamos a nós próprios da capacidade de amar com paixão. Os relacionamentos amorosos tornaram-se experiências egoístas de total desapego, hedonismo (a busca pelo prazer como único propósito), cinismo e ironia. Ocorre também uma separação da emocionalidade e da sexualidade, o lado escuro da revolução sexual, que coloca uns em posição inferior a outros, determinados pelas condições de emocionalidade.

Transformamos as relações amorosas, que deviam ser fonte de felicidade, em fonte de sofrimento. Sofrimento que ultrapassa as barreiras das dores interiores, pois ele deriva em parte da transformação das estruturas e das intituições sociais proporcionadas pelo sistema capitalista: a coisificação inerentemente débil e desapegada.

Posto isto, urge um modelo alternativo de expressão do amor através da sexualidade (para evitarmos o moralismo fácil) que não esteja separado dos nossos deveres para com os outros e as suas emoções. Para isto, temos que reinventar, coletivamente, a nossa capacidade de amar e que ela beba de uma ética que ponha a salvo a profundidade do amor como experiência humana.

Como diria Clarice Lispector, para contrariar a todos que queiram racionalizar o amor e os sentimentos: “O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.”

Sobre reaprender a viver…

Por que houve o amor, por alguém que nunca o priorizou?

Por que houve profundidade, se ele era raso e não sentia o coração?

Por que esse amor se disse forte, se quem o teve nunca o quis?

Nunca se deu de verdade, o evitou quando mais sentiu?”

A resposta pra essas perguntas é única. Porque tenho uma grande vocação pra ser trouxa. Mas de tanto insistir, chega o dia, embora bem tardio, de desistir. Se houver outras vidas, deixo para que elas resolvam os entraves dessa relação. Para essa vida, já deu. Era uma insistência que não estava fazendo bem a ninguém. Foi por si só um relacionamento em que carreguei e paguei por excesso de bagagem. Mas esse peso, eu não posso mais carregar.

Apaguei e me desfiz das lembranças, dos contatos. Foi uma atitude doída, mas necessária. Dentro de mim, ficam os buracos. Certamente um buraco que não vai se preencher nunca, pela profundidade que eu dedico aos meu relacionamentos, não apenas como amante, mas como amigo, como filho, como irmão. Eu me dou muito. E quem se dar muito, se fode! Perdi trabalho, perdi casa, perdi saúde, perdi a alegria de viver, perdi os sentidos de minha vida, porque me centrei em alguém que nunca iria corresponder ao amor que sentia. Não carrego essa culpa sozinho, pois como muito bem disse meu pai: pior do que ser trouxa, é quem se aproveita da trouxidão alheia. Quem se aproveita não passa de um cretino. É da mais pura falta de caráter.

O fato é que coleciono heranças malditas com esse fim: depressão, incertezas, insegurança, tristeza, desânimo… O buraco é um caldeirão dessas coisas. E como ele não se preenche, só me resta construir alicerces para uma outra coisa que ainda não sei o que é. Talvez consiga construir outros sentidos para tornar essa vida menos miserável. Até quando eu souber o que fazer, estarei na minha cabana, me privarei de frequentar espaços sociais (porque não estou mesmo nem um pouco afim de interagir mesmo), tomarei os comprimidos que cumprem bem a sua função de me fazer dormir, de me fazer acordar, de me fazer construir menos alucinações e delírios. Estarei duas vezes na semana no divã. Desabafando as minhas dores e tentando arrumar um jeito de sobreviver com os meus buracos.

Nunca mais serei a mesma pessoa, não sei se melhor ou pior. Acho que já chega de querer cuidar dos outros. Chega de implorar para que os outros cuidem de mim. Fiz isso a vida toda. Nesse processo de reaprendizado, tenho que me descobrir, me ver mais, cuidar mais de mim mesmo, trabalhar minhas outras habilidades, investir mais em mim, gostar de mim mesmo. Sim, ter o que mais me falta: amor próprio.

Até lá, continuo fechado para balanço. Que me desculpem as pessoas, mas não estou afim de estar com todos vocês, é um momento tão íntimo e intimista, que apenas aos muitos íntimos é possível estar perto.

Talvez um dia eu volte. Mas agora não. Atravessei uma tempestade. Há muitos destroços de mim. E até eu juntar alguns pedaços, pois sei que nem todos poderão ser recuperados, quero estar reservado. Para rever não apenas essa relação, mas todas as outras: como filho, como amigo, como irmão, como estudante, como empregado…

Preciso aprender a contar mais comigo mesmo do que contar com os outros. Preciso muito mais me apreciar do que fazer tudo para ter uma apreciação do outro. Com o outro, tudo é uma incerteza. Por mais que essa pessoa diga que gosta ou ama você.

Estou riscando da minha lista de conviventes todos os individualistas escrotos. Não quero mais gente que nada tem a dar e acrescentar na minha vida. E a qualquer um que seja, não darei nada mais que o necessário. Darei de mim apenas o proporcional ao que receber.

Chega de desequilíbrio na balança do esforço-recompensa nas relações. Não tenho vocação pra Cristo. Não ofereço mais a minha face. Não darei mais do que o necessário. Não amarei mais o próximo, do que a mim mesmo. Estou jogando essa cruz no chão. Na partida das minhas relações, de agora em diante, o único placar aceitável é 1 a 1.

Reaprendendo a viver, a amar, a me relacionar. Sem dar o gostinho de me tornar igual a muito de vocês. Porque em mim sempre haverá ternura, compaixão, solidariedade. Estarei um pouco mais endurecido, mas essas características estarão presentes.

Reaprender a viver. Não é a tarefa mais deliciosa do mundo. Quando temos que reaprender a viver, a gente sangra, chora, tem insônia, a gente apanha. Não se trata de uma folha em branco, onde a gente tem a oportunidade de se reescrever. As marcas do meu passado estarão sempre presentes. Tais marcas são objetos de minha reelaboração. É sobre elas que tenho que construir novas capacidades de amar, de ser e de estar no mundo.

“Casa dos meus pais” – ”Lá em casa”

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Uma cena comum:

Duas pessoas moram juntas. Aqui não interessa a relação entre elas. Se são casados, amigos, juntos ou qualquer outra coisa. O fato é que uma delas se prepara para sair, ao passo que a outra pergunta: “Onde tu vai?”. A pessoa que vai sair responde: “Vou só ali em casa”.

Acho que todo mundo entendeu o que quis dizer aqui né?

Não?

Vou explicar então. A grande maioria das pessoas tem esse lugar de referência: a casa dos pais, a casa da mãe ou a casa do pai. Há um pertencimento nato. Esse lugar, que é dos seus parentes e que você nem deve mais morar lá, será sempre um “lá em casa”.

Para algumas pessoas pode ser algo absolutamente sem importância, porque é tão “natural”, tão rotineiro, tão cotidiano que não percebemos a força que isso tem. O “lá em casa” é um porto seguro. Percebemos isso quando não o temos mais, seja porque os pais faleceram, mas o “lá em casa” pode ainda ser uma lembrança boa, ou porque nunca tivemos esse elo.

No meu caso particular, sou filho de um pai sem casa, porque ele mora na casa da esposa dele e de uma mãe sem casa também, porque ela mora na casa do esposo dela. Isso posto, porque inclusive foi algo já verbalizado por ambos companheiros de minha mãe e de meu pai, sou essa pessoa sem o “lá em casa”.

Mesmo sendo a casa onde moram os meus pais, há sempre um sentimento de constrangimento. Não é aquele lugar em que você normalmente chega, abre a geladeira, fuça as panelas, deixa uma camisa na cadeira da sala sem nenhuma culpa.

Já morei em casa de avós. Em casa de tios. Em casa de amigos. Sempre para mim ficava muito claro que era “a casa dos outros”. Isso era estabelecido pelas relações que se davam na própria casa.

Atualmente moro na casa da esposa do meu pai. Um lugar que ainda não consigo verbalizar como “lá em casa”. É e vai ser durante algum tempo o lugar onde moro, mas não o “lá em casa”, porque por mais que meu pai e sua esposa tenham me acolhido, sempre vai ser a casa do outro, porque não construí nenhuma relação com o que lá se encontra e a minha presença interfere na rotina antes estabelecida por eles. Haverá, em algum momento, um incomodo pela minha presença, exatamente porque é a casa do outro. É um ambiente em que você é limitado para não interferir no ritmo que era comum na casa. Exemplo que se deu agora ao redigir esse texto, em que o cheiro de ter um animal (que é meu) já está produzindo incômodos.

Outro fato é o da limitação. Todas as minhas atividades são feitas apenas em um quarto de 8 m²: criar uma gata, ter a caixa de areia dela, colocar minhas roupas, minhas cama, meus livros, lugar onde leio, onde vejo algum filme, onde estudo, onde escrevo. As possibilidades de receber alguém são limitadas.

O meu “lá em casa” era a minha casa, um tempo morando sozinho, outro tempo dividindo com outras pessoas, com coisas (utensílios, eletrodomésticos, mobília) que eram minhas e que assumiam um lugar que eu gostava que elas ficavam. Que se eu decidisse que hoje eu não queria dormir no meu quarto, mas colocar uma rede na sala. Em que assumia um lugar de protagonista e não de coadjuvante.

O fato é que mais uma vez isso se repete. E vai demorar algum tempo pra eu poder dizer “lá em casa”. Porque quando isso acontecer, não queria mais ter que me submeter, mesmo que de forma generosa, “a casa dos outros”.

Das primeiras perdas…

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Deito com os meus tormentos. Acordo com a missão derradeira de levar comigo apenas o suficiente. O que dá para levar.

Das coisas que para mim eram tão caras e agora estou tendo que desapegar.

Da casa de dois andares: com sala, cozinha, garagem, dois quartos, três banheiros. Dediquei tanto tempo para imprimir a minha identidade nesse lugar. Doei tempo para fazer sua manutenção que para mim era tão agradável, prazeroso. Deixar meu habitat limpo e do jeito que gosto, um hobby. Houve um investimento. A gente se reconhece no nosso lugar, porque o nosso lugar tem um pouco da gente. A gente estabelece relação. Aquele lugar fala de você.

Não ter mais aquele cantinho para acender um cigarro, aliviar a pressão do dia.

Não ter mais aquele lugar onde armava uma rede e deixava o tempo passar ao som de qualquer programação na TV.

Trocar um quarto de 20 m2, onde tudo tem o seu lugar, e quando enjoava, mudava tudo, por um de 12 m2, onde suas coisas mal cabem. Onde não há espaço para transitar. Onde você convive com coisas abarrotadas.

Onde você mesmo não cabe, que dirá os amantes.

Nesse pequeno espaço, só a lugar para coisas. Sem espírito, sem calor, sem desejo, sem vontade. As coisas que para mim tinham vida, agora parecem mortas.

Uma pílula para dormir e esquecer isso por algumas poucas e precárias noites de sono. Outra para acordar e suportar as horas que se arrastam.

É duro lidar com as perdas. Me dá falta de vontade, falta de ânimo. Sou um corpo mecânico. Sigo comandos. Pois eu mesmo, nesse momento, estou impossibilitado de criar.

Falta concentração. Falta autonomia. A gente só se sente no mundo quando se reconhece no seu lugar e é reconhecido pelos seus.

Nesse pequeno espaço, embora oferecido de tão bom grado, não consigo produzir uma única ideia. Não consigo ver uma saída.

Sinto apenas a dor por aquilo que perdi. São perdas materiais e imateriais.

Desfazer, desfazer-me. Ainda falta algo que me faça querer refazer-me.

Talvez um dia, alguma hora, tenha vontade de fazer isso.

Agora, tudo está turvo.

Agora, ainda é luto.

Agora, as coisas estão para ser postas em malas, em caixas, em bolsas, e serem rearranjadas nesse pequeno espaço.

Isso são as pequenas coisas que tenho noção que vou ter que me desfazer.

Há outras, que nem ouso pensar no momento, porque já me dói demais. Mas que terei que enfrentar…

Músicas e suas representações de gênero

Um vez, em uma conversa com um amigo sobre o forró estilizado fui chamado de preconceituoso. E a pessoa ainda me alertou que as representações desiguais estão em todos os ritmos, inclusive na MPB.

Fiquei pensando sobre a afirmação final de meu amigo.

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Uma de que eu seja realmente preconceituoso. Quanto a isso, digo, tenho preconceito sim, quem não tem? E acho que esse nem é o problema. O problema é o que eu faço com ele.

Bom, se sou preconceituoso com o forró estilizado, sou, mas até onde eu me lembre, nunca me manifestei de forma odiosa ou violenta, apenas tenho minhas críticas a partir do meu lugar no mundo. Nunca agredi nem verbalmente e nem fisicamente os que compõem, trabalham, cantam e dançam o tal ritmo. Nunca nem me retirei de um lugar (festa, ônibus, etc. – embora tivesse vontade de morrer em algumas situações) que tivesse tocando essas músicas.

No entanto, quando você não é o macho, você certamente sofrerá violência, no mínimo simbólica, por parte desse ritmo musical. E o pior de tudo, esse FORRÓ É DITO COMO PARTE DA CULTURA. E sinto muito, mas essa cultura aí está sendo desafiada continuamente a mudar.

Não estou sendo claro com o que quero dizer? Ok, vamos ao seguinte exercício de reflexão: Como são vistos os homens nas letras de forró estilizado? Como são vistas as mulheres? E os/as homossexuais? Percebe como os homens cis heterossexuais são fodas quanto comparado aos outros?

Sim, no lugar de dominação estão eles: os homens cis heterossexuais que pode até amar uma mulher (aquela que se enquadra no perfil para casar), mas que come todas as outras (as ditas raparigas, quengas e outras adjetivações), veste roupas de marca, bebe whisky-Redbull e anda num carro rebaixado. Estereotipificações a parte, pois nem todos os homens que escutam, dançam e curtem forró estilizado são absolutamente assim (e eu inclusive mantenho laços de amizade com alguns que curtem), mas é esse o arquétipo perfeito que é produzido e reproduzido pelas letras, e isso me incomoda profundamente.

Incomoda-me por causa da reprodução dos valores do patriarcado, porque funcionam como engrenagem da macroestrutura, inculcando objetos de desejo a serem consumidos. Aquela velha história do ter coisas em detrimento do ser alguém na sua singularidade. E o ritmo pode até ser contagiante, mas se fosse a professora do Charlie Brown cantando eu pudesse até gostar. O problema para mim é o apelo das letras, o que elas sugerem.

Vejamos agora as mulheres no forró estilizado, que lugares elas ocupam? O primeiro é o da mulher apaixonada e submissa, e por isso, superior aquelas que são consideradas raparigas por gozarem de sua liberdade sexual. Apenas essas mulheres tem lugar de fala nas letras. Não há lugar de fala entre aquelas consideradas biscates. Para exemplificar, repare a narrativa sobre a rapariga nas letras “Amor de Rapariga” do Forró Calcinha Preta e do Sirano e Sirino. Em nenhum momento houve a fala daquela sobre o qual é falada. E o pior de tudo, são letras que colocam mulheres contra mulheres por causa de quem? Isso mesmo, do homem cis heterossexual. Cria-se, portanto, intransponíveis barreiras de distinção entre homens e mulheres e entre as mulheres.

Mas isso também não acontece nos demais ritmos musicais, como a MPB, o Samba, o Funk, no rock, etc.? Sim, acontece! No entanto, nos demais ritmos há espaço para as múltiplas falas e representações. Há projeções desses sujeitos. E há reconhecimento também, o que tira do lugar de lixo social, de objeto.

Por exemplo, no funk. Ao passo que tem o Mc Serginho que fala o quanto ele é foda enquanto homem viril, tem a Valesca Popozuda com suas letras pautadas na dimensão da liberdade sexual das mulheres, não havendo problema algum nisso, pelo contrário, assume um caráter afirmativo e não de subalterna.

No rock, o dito estilo dos rebeldes, isso também ocorre. Conversando com as garotas que curtem o gênero, nas suas mais variadas formas, as mesmas relatam que são vistas como grouppies por parte dos homens e que assume, por muitas vezes, um caráter violento, de submissão. Entretanto, as mulheres têm disputado esse território, que é sim um território de representações de um determinado tipo de masculinidade, e feito trabalhos incríveis.

Sendo assim, por que essa perseguição apenas com o forró? Opa, minha perseguição não é contra o forró (eu gosto e danço), e sim, a um determinado ramo (não gosto e nem danço), que em todo o seu arsenal reproduzem distinções entre representações de gênero e sexualidade. E não, não que eu espere uma letra limpinha. Vale jogar a sensualidade na dança, no modo de se vestir, nas letras. Não assumo aqui um discurso moralista. Só acho que não vale essa de ficar colocando uns no pedestal e os outros embaixo dos pés, sendo outros mais embaixo ainda.

No dia que todas as vozes forem amplificadas nesse estilo, talvez passe a ver o tal forró estilizado com outros olhos. Desse modo, desafio que compositores e compositoras e demais partidários desse ritmo visibilizem as falas das raparigas não como destruidoras de lar, mas como mulheres que assumem a autonomia de seus corpos e que fazem isso por pura auto satisfação e não satisfação de outro. Desafio que as mulheres que já cantam subvertam esse discurso da mulher pudica, que “se valoriza”. Desafio ainda, a ruptura da heteronormatividade. Que tal possibilitar dança de homem com homem, de mulher com mulher, sem que seja essa coisa que é análoga à dança de acasalamento do macho com a fêmea, em que o macho que melhor conduz essa fêmea e que possui atributos como carro, roupa de marca e demais indumentárias seja o digno de copular com elas? Seria uma forma de romper com o caráter restritamente heterossexual do estilo. E ainda mais, que tal ultrapassar essa visão caricata, desrespeitosa e (sem nenhum medo de afirmar isso) homofóbica, encontrada nas letras?

Como bem disse a Lily Allen, no mercado da música (e aqui coloco todos os ritmos musicais), “It’s hard out here for the bitches” (Está difícil aqui para as vadias), e assumo esse adjetivo de vadia em uma perspectiva altamente afirmativa.

Meu poema erótico

Venha com esses olhos fervendo
Olhos cor de desejo e tesão
Olhar que me tira da cadeira
Seduz nas escadas
Que me atira na cama

Tuas mãos…
Mãos fortes que me tocam
Faz meu corpo estremecer
Com um único toque dos seus dedos
Hummmmmmm. Seus dedos.

Quando amanhece o dia
E vais embora para tua vida
Hoje, talvez, para muitas meninas
No futuro, a mulher, os filhos, a família
Não me importa

Pois tu levas o corpo
Mas fica o cheiro que a água não tira
Guardo como medalhas as marcas de mordida
Deixas em mim, tão breves e permanentes lembranças

Tu vais, mas tu sempre voltas
Passem dias, meses ou um instante
Não tenho como deixar de te desejar
Como deseja sempre um eterno amante