Cantada às avessas

“Té que foi tão bom fugir e te esquecer
Não saber mais nem notícia de você
Com a tristeza consegui me entender
Com a saudade conviver
E com a dor não me doer”

 

Depois que eu te odiei, eu nunca mais tinha entrado em casa com calma. Nunca mais tinha fumado meu cigarro na varanda à tarde, no calor insuportável de que a gente reclamava junto. Depois que eu te odiei, nunca mais tinha entrado no ônibus que me levava pra gente. Nuca mais tinha chorado descaradamente no escuro lotado, depois que eu te odiei. Eu nunca mais tinha escutado uma música nova e querido te mostrar. Eu te odiei até achar que te esqueci, mas só até te achar nas gavetas da minha sala e na poeira da casa deixada só. Depois que eu te odiei, eu achei que tinha gente nova no peito, mas eu ainda tô meio entalada com essa história. Eu nunca mais tinha tropeçado em ti na rua vazia por onde caminho apressada à noite. Nunca mais tinha visitado os lugares desertos de gente e esperança onde a gente ia confirmar que não, nunca teve sentido ou futuro. Depois que te odiei, eu achava que já estava inerte, que já não doía, que já era passado. Mas parece que te odiar ainda não foi suficiente, porque eu tô aqui de novo.

E essa eterna sensação de não ser o suficiente é o que vai ficar. Eu leio e releio os tantos textos que já te escrevi e só penso que era tão bonito, nunca deveria ter terminado desse jeito. “Tô indo, amor, que deus me livre terminar assim”, e você olhando pra mim meio tímido no vídeo, enquanto eu cantava de olho fechado, como sempre. Mas terminou. Eu teimo em remoer, mas na verdade nem começou. E vou eu de novo no ônibus pra história sem fim nem começo, escutando uma playlist composta 62 vezes por uma única música. A trilha sonora que finge ser feliz, mas é tão triste.

Eu me prometo que tô bem. Juro que esqueci. Não sei mais nem qual o som da tua voz, nem lembro mais teu rosto, tua barba densa, ainda bem que você foi embora, se calou, se fez de morto. Aí o som de uma pedaleira de vocal (não sei o nome técnico, nunca soube das técnicas, minha técnica era você), lembrando a segunda voz que você criava pra mim, me esbofeteia na mesa do almoço, e eu choro sem querer. E isso só me lembra que nossa voz nunca encaixava mesmo, eu deveria ter entendido sobretudo esse sinal. Sempre foi minha voz OU a sua, exceto a música do vídeo e a do Tatit.

De quem, aliás, é a música que eu quis te mostrar, depois de tanto tempo.

“Evitar de se espalhar bem que tentei
Mas também não é só comigo, eu reparei
A tristeza é todo mundo e é de ninguém
A tristeza ‘tá no fundo
Da tristeza eu sou o rei”

 

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