O que não foi

Eu não sei o dia do seu aniversário. Não sei quantos anos você tem. Não sei se você sabe dançar ou no que você pensa antes de dormir. Acho que eu me concentrei tanto na miragem de profundidade em que acreditei que a gente se viu desde sempre que a gente acabou esquecendo as coisas superficiais. Que coisa triste é esquecer as coisas superficiais.
Porque, sabe, no fundo é o amargo de não ter vivido as coisas bobas que vai ficar. “Esse gosto de sabão na boca. Arcoíris já mudou de cor. Uma rosa nunca mais desabrochou.”
Acho que alguém já escreveu um texto sobre isso, mas não importa. Eu até procurei que só, mas não achei e decidi escrever o meu. Porque, sim, o que vai ser difícil de superar é o que não aconteceu. Até porque, pensando bem, nem aconteceu tanta coisa assim. Nem era pra tanto, né?

Mas eu ainda vou dormir muito tempo pensando em que lado da cama você prefere, e olha que eu durmo de rede. Em como você reagiria quando me visse dançando loucamente pela sala. Ou como seria aquele sexo do domingo à tarde, que começa só porque a gente tá sem nada pra fazer e deitou um pouco ao lado um do outro pra ler, mas aí sentiu um cheiro de pele, e quando viu já era (melhor sexo, aliás). Ou como você fica quando tá bêbado. Se você acharia muito idiota quando eu propusesse passar a noite acordada jogando video game ou quando eu achasse genial a gente ficar em casa lendo poesia e cantando num sábado à noite, mesmo que fosse só a gente. Como seria competir pra ver quem faz o café melhor, ou brigar de verdade porque você acha que quase tudo na história da música é melhor que Beatles (sim, Queen é muito bom, mas só uma banda não deixou incólume nenhuma musicalidade produzida depois dela, e não foi o Queen, sorry). Ou o que você acharia de eu ter tantos lápis de cor na minha idade e se você me ajudaria a apontá-los certinho. Porque eu não sei como você é quando tá mal-humorado, se você também tem manias estranhas ou se coleciona alguma tralha. Ou qual o teu cheiro preferido no mundo todo. Ou se você gosta de dormir até muito tarde. Porque você não vai me ensinar a surfar, e eu não vou te encher o saco pra gente ir pular da ponte num sábado à tarde. Porque, como eu não sei quando é seu aniversário, eu não vou poder fingir que não é uma data importante pra mim e fazer um presente de papel e tinta pra te dar num dia que não tenha nada a ver. E eu não sei se você gosta de cafuné ou quando você se cansaria por eu pedir pra você mexer no meu cabelo o tempo todo. Porque a gente nunca vai planejar uma viagem juntos. E porque você nunca me viu chorar de verdade, e não vai saber que eu não sou nem de longe tão forte quanto tento parecer, desse jeito que parece te intimidar; que eu só não sei pedir ajuda, mesmo quando eu quero muito. Porque a gente nunca vai compartilhar nossa solidão.

Essas coisas todas, que eu quis com poucas pessoas na vida. Essas coisas banais de quem tem um amor de muito tempo, e a gente sequer chegou a ser amor. E não é como se eu tivesse acreditado em algum momento que essas coisas aconteceriam. Saber que não é possível não me impede de querer.
Mas aí eu lembro que não tem lugar pra mim que não seja de espera, e, você não sabe, mas eu detesto esperar. Porque eu cheguei tarde demais. E as coisas desandaram cedo demais. E nada garante que, eu chegando antes, seria diferente. E o que parece, pela realidade dos fatos, é que eu mesma fui só uma conquista entre as muitas espalhadas no teu mapa. Só nunca entendi por que destacar tantas tropas por uma terra que você nem queria e de que nunca precisou.

Então eu fico me esforçando pra me convencer de que tudo isso é uma grande viagem minha, e que daqui a pouco vai passar. Deve passar. Tem que passar, ou pelo menos que deixar de arder assim. Vou esperar que essa agonia toda seja só do corte começando a fechar, porque já tá muito claro que não tem jeito além de esperar a cicatriz. Mas hoje, só hoje que minha vida meio que tá explodindo na minha cara, eu seria capaz de jurar que te deixaria me tocar e pediria 05 minutos do teu abraço infinito.

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