Amor em Tempos Sombrios

“Amamos mais os nossos desejos, do que os objetos dos nossos desejos.” escreveu Nietzche na segunda metade do século XIX, período de expansão do sistema capitalista.

Tal sistema, fortemente associado à desigual distribuição de renda e poder, é precussor não apenas da exploração econômica, mas de uma exploração cultural também. Genericamente, cultura é todo um complexo de relações que inclui o conhecimento, os costumes, os desejos e todos os hábitos e aptidões adquiridos pela humanidade não somente em família, como também em sociedade. A forma de vestir-se, de falar, de se expressar e de amar são elementos culturais. Nessa simbiose entre economia e cultura, as relações entre humanos no sistema capitalista são marcadas pelo individualismo e pela produção permanente de desejos, de carências e de falta, em que o outro perde o seu estado de humanidade e torna-se coisa a ser consumida. Depois de satisfeita a necessidade, como tudo que é produzido e consumido nesse sistema, é descartada.

O capitalismo moderno altera drasticamente não apenas a esfera do trabalho, da produção e do consumo de bens materiais, mas também das relações entre os humanos. Os afetos e as relações interpessoais são impregnados pelos repertórios do mercado e pela lógica do cálculo, desempenho e da racionalidade econômica. Assim, o sistema capitalista penetra muito mais profundamente em nossa existência, parafreseando Foucault, filósofo contemporâneo.

O estilo afetivo no capitalismo moderno torna-se um conjunto de práticas culturais formadas por esquemas de compreensão, práticas sociais e técnicas ajustadas a apreender e gerir os afetos. Somos sistematicamente forçados a manejar as emoções, com aspiração única de autorrealização. São tempos de auto. Centralidade no eu. Tornando-nos seres competitivos para a posse de bens e formas de bem-estar socialmente almejados: autorrealização, desempenho e êxito não apenas no mundo das empresas, mas também nas relações amorosas.

Na configuração social dos relacionamentos amorosos da contemporaneidade é fácil notar o poder de estruturação e de enquadramento dos modos de agir e pensar do mercado. O espírito e a lógica das relações seguem claramente princípios típicos da racionalidade da esfera da troca de mercadorias e do mercado capitalista, tais como abundância, escolha ampla, valor, competição e desempenho. O resultado, como afirma a socióloga Illouz, é um vocabulário de afetos exclusivamente ditado pelo mercado.

A mediação da cultura capitalista na esfera das trocas amorosas alça ainda o processo de construção de subjetividades encenadas e objetificadas. Perfis de Facebook, Instagran. O sistema capitalista introduz um processo de racionalização dos afetos, incorporado, inclusive, pela psicologia e os credos terapeuticos. Ocorre, então, um vasto processo de racionalização das relações íntimas.

Quais as consequências disso? O desenvolvimento crescente de um maior domínio e autocontrole dos impulsos emocionais, consolidou uma despersonalização dos sentimentos, ou seja, a ideia de que os sentimentos podem ser desligados do sujeito para controle e esclarecimento. A omnipresença de modelos económicos passam a dar forma ao eu e suas emoções. Nos privamos a nós próprios da capacidade de amar com paixão. Os relacionamentos amorosos tornaram-se experiências egoístas de total desapego, hedonismo (a busca pelo prazer como único propósito), cinismo e ironia. Ocorre também uma separação da emocionalidade e da sexualidade, o lado escuro da revolução sexual, que coloca uns em posição inferior a outros, determinados pelas condições de emocionalidade.

Transformamos as relações amorosas, que deviam ser fonte de felicidade, em fonte de sofrimento. Sofrimento que ultrapassa as barreiras das dores interiores, pois ele deriva em parte da transformação das estruturas e das intituições sociais proporcionadas pelo sistema capitalista: a coisificação inerentemente débil e desapegada.

Posto isto, urge um modelo alternativo de expressão do amor através da sexualidade (para evitarmos o moralismo fácil) que não esteja separado dos nossos deveres para com os outros e as suas emoções. Para isto, temos que reinventar, coletivamente, a nossa capacidade de amar e que ela beba de uma ética que ponha a salvo a profundidade do amor como experiência humana.

Como diria Clarice Lispector, para contrariar a todos que queiram racionalizar o amor e os sentimentos: “O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.”

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