Sobre reaprender a viver…

Por que houve o amor, por alguém que nunca o priorizou?

Por que houve profundidade, se ele era raso e não sentia o coração?

Por que esse amor se disse forte, se quem o teve nunca o quis?

Nunca se deu de verdade, o evitou quando mais sentiu?”

A resposta pra essas perguntas é única. Porque tenho uma grande vocação pra ser trouxa. Mas de tanto insistir, chega o dia, embora bem tardio, de desistir. Se houver outras vidas, deixo para que elas resolvam os entraves dessa relação. Para essa vida, já deu. Era uma insistência que não estava fazendo bem a ninguém. Foi por si só um relacionamento em que carreguei e paguei por excesso de bagagem. Mas esse peso, eu não posso mais carregar.

Apaguei e me desfiz das lembranças, dos contatos. Foi uma atitude doída, mas necessária. Dentro de mim, ficam os buracos. Certamente um buraco que não vai se preencher nunca, pela profundidade que eu dedico aos meu relacionamentos, não apenas como amante, mas como amigo, como filho, como irmão. Eu me dou muito. E quem se dar muito, se fode! Perdi trabalho, perdi casa, perdi saúde, perdi a alegria de viver, perdi os sentidos de minha vida, porque me centrei em alguém que nunca iria corresponder ao amor que sentia. Não carrego essa culpa sozinho, pois como muito bem disse meu pai: pior do que ser trouxa, é quem se aproveita da trouxidão alheia. Quem se aproveita não passa de um cretino. É da mais pura falta de caráter.

O fato é que coleciono heranças malditas com esse fim: depressão, incertezas, insegurança, tristeza, desânimo… O buraco é um caldeirão dessas coisas. E como ele não se preenche, só me resta construir alicerces para uma outra coisa que ainda não sei o que é. Talvez consiga construir outros sentidos para tornar essa vida menos miserável. Até quando eu souber o que fazer, estarei na minha cabana, me privarei de frequentar espaços sociais (porque não estou mesmo nem um pouco afim de interagir mesmo), tomarei os comprimidos que cumprem bem a sua função de me fazer dormir, de me fazer acordar, de me fazer construir menos alucinações e delírios. Estarei duas vezes na semana no divã. Desabafando as minhas dores e tentando arrumar um jeito de sobreviver com os meus buracos.

Nunca mais serei a mesma pessoa, não sei se melhor ou pior. Acho que já chega de querer cuidar dos outros. Chega de implorar para que os outros cuidem de mim. Fiz isso a vida toda. Nesse processo de reaprendizado, tenho que me descobrir, me ver mais, cuidar mais de mim mesmo, trabalhar minhas outras habilidades, investir mais em mim, gostar de mim mesmo. Sim, ter o que mais me falta: amor próprio.

Até lá, continuo fechado para balanço. Que me desculpem as pessoas, mas não estou afim de estar com todos vocês, é um momento tão íntimo e intimista, que apenas aos muitos íntimos é possível estar perto.

Talvez um dia eu volte. Mas agora não. Atravessei uma tempestade. Há muitos destroços de mim. E até eu juntar alguns pedaços, pois sei que nem todos poderão ser recuperados, quero estar reservado. Para rever não apenas essa relação, mas todas as outras: como filho, como amigo, como irmão, como estudante, como empregado…

Preciso aprender a contar mais comigo mesmo do que contar com os outros. Preciso muito mais me apreciar do que fazer tudo para ter uma apreciação do outro. Com o outro, tudo é uma incerteza. Por mais que essa pessoa diga que gosta ou ama você.

Estou riscando da minha lista de conviventes todos os individualistas escrotos. Não quero mais gente que nada tem a dar e acrescentar na minha vida. E a qualquer um que seja, não darei nada mais que o necessário. Darei de mim apenas o proporcional ao que receber.

Chega de desequilíbrio na balança do esforço-recompensa nas relações. Não tenho vocação pra Cristo. Não ofereço mais a minha face. Não darei mais do que o necessário. Não amarei mais o próximo, do que a mim mesmo. Estou jogando essa cruz no chão. Na partida das minhas relações, de agora em diante, o único placar aceitável é 1 a 1.

Reaprendendo a viver, a amar, a me relacionar. Sem dar o gostinho de me tornar igual a muito de vocês. Porque em mim sempre haverá ternura, compaixão, solidariedade. Estarei um pouco mais endurecido, mas essas características estarão presentes.

Reaprender a viver. Não é a tarefa mais deliciosa do mundo. Quando temos que reaprender a viver, a gente sangra, chora, tem insônia, a gente apanha. Não se trata de uma folha em branco, onde a gente tem a oportunidade de se reescrever. As marcas do meu passado estarão sempre presentes. Tais marcas são objetos de minha reelaboração. É sobre elas que tenho que construir novas capacidades de amar, de ser e de estar no mundo.

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