Sobre ficar banguela

Eu não sei exatamente quem culpar, sabe? Eu queria ser dessas pessoas que conseguem culpar tudo no mundo, inventar compulsões pra se desresponsabilizar, dizer “ah, juro que eu tento controlar, mas não consigo” (e aqui eu quero abrir a ressalva de que sei que há casos e casos, mas ainda tô com o Rossano Cabral na análise que ele faz de atualmente muita gente se vale disso porque é menos doloroso; a prevalência de transtorno não é tão alta quanto a frequência desse tipo de explicação, fica a dica). Simplesmente não tento mais controlar. Preferi tentar conviver com isso. Eu não sei se foram os músicos que minha geração ouviu, eu não sei se é a história da humanidade ser uma bosta, eu não sei dizer exatamente por quê, mas eu sempre me identifiquei como uma pessoa triste.

Eu ouvia Trio Irakitan, Tom Jobim, João Gilbeto, Caetano Veloso, Vinicius de Moraes, Chitãozinho e Chororó, Chico Buarque e Legião Urbana (entre outras coisas, como funk de protesto) quando era criança. Tô falando criança mesmo, 6, 7, 8 anos. E não era só ouvir: eu me identificava com aquilo, com aquela tristeza toda dissolvida em poesia e melodia. Na adolescência, acrescentei Radiohead, Travis, Raul Seixas, Alanis Morissette, Pato Fu, Los Hermanos. Mais tarde, Damien Rice, Amy Winehouse, Coldplay, The Magic Numbers, Arctic Monkeys, Chico César (eu sei que ele não é triste, mas não poderia não citá-lo na lista), Mônica Salmaso. Eu escrevia textos, entre prosa e poesia, muito tristes, com 10 ou 12 anos. Lembro que uma prima minha uma vez duvidou que eram meus mesmo e me fez escrever uns 04 ou 05 seguidos pra provar. E eu tinha tanto material guardado que consegui escrever.  Um dos meus livros preferidos na vida é “O apanhador no campo de centeio”.

Sim, é esse o tipo de gente que eu sou. Quer dizer que eu sempre sou triste e estou chorando, o tempo todo? Que eu tô sempre mal, que nada me faz achar graça? Não, quer não. Quer dizer que, mesmo que eu esteja alegre, cantando, rindo, dançando, está lá. Quer dizer que é muito difícil que se passe um dia sem que eu me lembre de todas as coisas estúpidas que eu já fiz na vida, e que elas são muito mais pungentes que qualquer coisa legal, inteligente ou amável que eu possa ter feito. E isso me faz sempre sentir mais estúpida, e eu fico achando que sou tão retardada (no sentido real, de atraso mesmo) que ainda tenho 13 anos, porque é isso que eu ouço sempre: que pessoas maduras aprendem a lidar com essas situações. Se eu não aprendi, é porque sou imatura, né?

Eu não gosto de viver como vocês todos parecem gostar, sabe? Na verdade, olho muito pra vida com essa sensação de “enquanto for interessante, eu fico”. Tô ficando, por enquanto, mas todo mundo que me importa já ouviu pelo menos uma vez na vida que não contem que isso vá ser até meu corpo não aguentar. Vai ser até eu não aguentar, e honestamente eu mesma nunca terei como dar garantias de quando vai ser isso.

Aí que uma das coisas que torna menos pesado estar viva é encontrar pessoas em que eu acho que posso confiar, com quem eu me sinto segura, ou, como diz o Deleuze, em quem eu consigo identificar essa centelha de loucura, com a qual eu posso me identificar. Aí que cada vez que uma imagem dessas se desfaz é um pouco mais difícil me levantar no outro dia. Todas as minhas relações significativas que passam por algo muito marcado, ou se transformam ou terminam (acho que as de todo mundo, anyway). E se as minhas terminam, elas definitivamente terminam. Se eu deixo de falar com alguém que amei muito, é pra pessoa nunca mais me ver propositalmente, em geral, e muitas vezes é sem momentos de explicação e esclarecimento. E isso é por quê? Porque eu sou uma pessoa cruel e fria? Um pouco, talvez. Mas é também porque é sempre muito muito difícil assumir que eu preciso me distanciar de alguém que já viu coisas muito importantes a meu respeito. Ou porque eu tô tão louca e tão perdida no meu medo de viver que eu não sei mais o que fazer.

Por conta desses episódios de não saber o que fazer, eu já fui muito ruim com algumas pessoas, inclusive com algumas que nem de longe mereciam. Eu sei disso, eu me arrependo amargamente, e eu nem insisto porque sei mesmo que nunca vou ter como me redimir, mas hoje eu realmente me esforço muito pra não ser ruim nas poucas relações que eu tento conservar ao longo do tempo.

Shade costuma dizer que eu tenho opiniões muito firmes sobre coisas banais. Bem, cada vez que eu compartilho uma dessas opiniões com alguém, eu tô botando pra fora um pouco dessas besteiras que eu fico pensando e fazendo quando tô sozinha (que é tipo 70% da minha vida). Mesmo quando eu tô ao lado de alguém com quem me sinto muito à vontade, eu passo muito tempo em silêncio. Aí você vem e se sente no direito de se identificar com todas as minhas banalidades. Pensa a mesma coisa sobre tudo que eu já pensei, ama todas as besteiras que eu amei sozinha a vida inteira, pensa o mesmo que eu sobre as coisas que eu nem sabia que outras pessoas pensavam, escava minhas fraquezas pra ser igual.

Isso depois de eu insistir que não gosto que as pessoas se aproximem. De eu ser chata mesmo, de não dar atenção a todo mundo, de não corresponder à altura ao carinho e à atenção que me dão quando eu não tenho intimidade, de recusar insistentemente os convites até parar de recebê-los. Eu não faço isso por acaso, na maioria das vezes. Eu faço porque eu não quero ter muita gente próxima, porque lidar com todas essas coisas em uma relação é sempre muito difícil pra mim. Mas aí você vem, e mesmo depois de ouvir todos os discursos sobre a minha chatice, sobre como eu não gosto e trato mal a maioria das pessoas, sobre como eu não sei lidar com as coisas simples que todo mundo enfrenta todo dia, você insiste mais. Tenta me deixar à vontade e me fazer sentir segura. Pra simplesmente dizer depois que não importa tanto, quando finalmente essas coisas acontecerem.

Vocês que conseguem viver a normalidade do cotidiano sem muito sofrimento provavelmente não entendem o efeito devastador que esse tipo de coisa tem pra gente dramática e chorona, pra quem tudo é apenas uma grande pegadinha da vida, como eu, sabe? Vocês acham que quando forem embora ou quando deixarem claro que nem se importam tanto assim, a gente vai aprender a lidar e vai sobreviver, e provavelmente é isso que vai acontecer, em parte. Porque eu mesma não vou morrer por conta disso, mas esse dente que você arrancou não vai nascer mais, e o sorriso por aqui vai ficar torto pra sempre.

Então não é como se eu esperasse muito amor de todo mundo. Pelo contrário, eu espero sempre que as pessoas sejam  ruins, ou no máximo desinteressantes, por isso quero distância da maior parte delas. Mas quando você insiste em fazer parte da minha vida eu realmente gostaria que você tivesse mais consideração pelo que eu sinto que simplesmente resolver que a brincadeira perdeu a graça. Eu acho que o que me faz uma grande trouxa na vida é exatamente isso: querer que algumas pessoas tenham por mim a consideração que eu tenho por elas. E, olha, nem tô dizendo esperar, que no fundo eu sei que cada pessoa tem pelas outras a consideração que quer, não a que é esperada; mesmo assim dói. E a pior parte é saber que sou eu mesma quem permite que essas coisas aconteçam. Por muito tempo eu achei que merecia isso. Hoje não.

Eu sei que vai parecer que esse texto é sobre uma pessoa específica, mas eu já passei TANTAS, TANTAS VEZES pelas mesmas situações descritas aqui, com relações de tantos tipos diferentes, que, acreditem, não é. É só que hoje foi mais um dia difícil, essas coisas pesaram mais, tá mais difícil me concentrar no que eu realmente deveria fazer. Precisava ver se ao menos o peito fica mais leve, já que a cara tá tão torta. Eu queria dizer que chega, e escrever é minha forma de elaborar isso.

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