Cantada às avessas

“Té que foi tão bom fugir e te esquecer
Não saber mais nem notícia de você
Com a tristeza consegui me entender
Com a saudade conviver
E com a dor não me doer”

 

Depois que eu te odiei, eu nunca mais tinha entrado em casa com calma. Nunca mais tinha fumado meu cigarro na varanda à tarde, no calor insuportável de que a gente reclamava junto. Depois que eu te odiei, nunca mais tinha entrado no ônibus que me levava pra gente. Nuca mais tinha chorado descaradamente no escuro lotado, depois que eu te odiei. Eu nunca mais tinha escutado uma música nova e querido te mostrar. Eu te odiei até achar que te esqueci, mas só até te achar nas gavetas da minha sala e na poeira da casa deixada só. Depois que eu te odiei, eu achei que tinha gente nova no peito, mas eu ainda tô meio entalada com essa história. Eu nunca mais tinha tropeçado em ti na rua vazia por onde caminho apressada à noite. Nunca mais tinha visitado os lugares desertos de gente e esperança onde a gente ia confirmar que não, nunca teve sentido ou futuro. Depois que te odiei, eu achava que já estava inerte, que já não doía, que já era passado. Mas parece que te odiar ainda não foi suficiente, porque eu tô aqui de novo.

E essa eterna sensação de não ser o suficiente é o que vai ficar. Eu leio e releio os tantos textos que já te escrevi e só penso que era tão bonito, nunca deveria ter terminado desse jeito. “Tô indo, amor, que deus me livre terminar assim”, e você olhando pra mim meio tímido no vídeo, enquanto eu cantava de olho fechado, como sempre. Mas terminou. Eu teimo em remoer, mas na verdade nem começou. E vou eu de novo no ônibus pra história sem fim nem começo, escutando uma playlist composta 62 vezes por uma única música. A trilha sonora que finge ser feliz, mas é tão triste.

Eu me prometo que tô bem. Juro que esqueci. Não sei mais nem qual o som da tua voz, nem lembro mais teu rosto, tua barba densa, ainda bem que você foi embora, se calou, se fez de morto. Aí o som de uma pedaleira de vocal (não sei o nome técnico, nunca soube das técnicas, minha técnica era você), lembrando a segunda voz que você criava pra mim, me esbofeteia na mesa do almoço, e eu choro sem querer. E isso só me lembra que nossa voz nunca encaixava mesmo, eu deveria ter entendido sobretudo esse sinal. Sempre foi minha voz OU a sua, exceto a música do vídeo e a do Tatit.

De quem, aliás, é a música que eu quis te mostrar, depois de tanto tempo.

“Evitar de se espalhar bem que tentei
Mas também não é só comigo, eu reparei
A tristeza é todo mundo e é de ninguém
A tristeza ‘tá no fundo
Da tristeza eu sou o rei”

 

Vá a merda, que eu tô soltando a franga

Foi um período de um longo silêncio. O que vou colocar aqui me expõe completamente, mas é cômodo pra uma cambada sanguinária que eu me cale. Ah, depois de tanto tempo com alguns gritos abafados, que retalhou o que havia de mais íntimo em mim… Rá, rá… tenham cuidado seus machistas escrotos, sua cambada de heterossexuais com a sua boca suja de falso moralismo e com a sua fé fraca e abalada! Porque agora, depois de atravessar esse calvário, a minha fé é cega e a minha faca é amolada!

Desde que eu me entendo por gente, sou homossexual! Tinha trejeitos, era afeminado, gostava mais da Xuxa do que do Rambo, gostava mais de brincar de casinha do que jogar bola. A violência que o machismo imprimiu em mim, remota das relações mais primárias. Com os meus familiares, com as professoras de ensino pré-escolar e primário, com outras crianças como eu era. No meio a tudo isso, nunca me ensinaram a reagir. Nunca aprendi a reagir também. Levei esses açoites normativos do ser macho silenciosamente. Tornei-me e fui tornado frágil. Convenientemente dócil.

Tanta docilidade ainda quando criança, com cinco ou seis anos de idade, fui vítima da forma mais vil que uma pessoa poderia. Ser criança, ter um quadril grande, usar sunga e ter trejeitos não me tornava um corpo-objeto acessível. Por mais que eu já tivesse desejo pelo mesmo sexo, era um desejo infantil e prematuro. Eu estava fazendo o que qualquer criança da minha idade fazia. Eu estava brincando e não me exibindo e tampouco provocar alguém. Não tinha em mim um rótulo escrito: abuse! Mas fui encurralado e aconteceu. Emudeci.

Fui crescendo. Mesmo sendo tão visível o que eu era, os comentários entre as pessoas que eu mais amava exalava o mais pútrido discurso homofóbico. Aquelas palavras me feriam mais que uma lâmina transpassada por todo o meu corpo. Diante de tudo aquilo, só aprendi a me reprimir e a emudecer. Cheguei tantas vezes a me odiar porque era assim! E com todas as minhas características, que me acompanham desde sempre, uma outra pessoa, só que dessa vez muito próxima, também pensou que eu era um corpo-objeto. E no mais covarde jogo de poder, eu, com apenas 14 anos de idade, fui abusado novamente. Muitas e muitas vezes pela mesma pessoa. Mais uma vez, emudeci.

Dos 14 aos 24 anos, vivi no mais completo estado de reclusão do que era. Não tive namorinhos. Não tive ficas. Não paquerava. Eu tinha muita vergonha de mim, do meu desejo.

Apenas com 24 anos de idade, resolvi que era o tempo de desabrochar e encarar uma vida sexual de forma consensuada. Conheci o rapaz pelo qual fui apaixonado dos 24 aos 30 anos. Vivemos a maior parte desse período apenas entre um encontro e outro. Rompemos. Também por causa do machismo (dele). Já superado dessa história, ele retorna com uma proposta de amor. Consensuamos como seria essa relação. Eu fui o melhor que pude ser: proporcionei sigilo, fiz da minha casa a casa dele, “emprestei dinheiro”, dei dinheiro quando ele me dizia estar precisando para algo muito sério. Não porque era burro e idiota, mas numa relação é assim, a gente vai cuidando um do outro.

Eu assumi o risco de viver um relacionamento com uma pessoa que não assumia comigo uma relação homoafetiva por amor! Poderia ter sido muito bom, se tivesse havido respeito mútuo. Mas da parte dele teve apenas descaso, falta de cuidado, desamparo, imprudência e o mais profundo desrespeito comigo e com o que sentia. Tão grande era o que ele me fazia (e sim, eu permitia, mas eu estava apaixonado – meu único erro) que foi causando um dano psicológico em mim. Um dano permanente.

Ansiedade, pânico, depressão, surtos… E tantas vezes eu tentei conversar, dizer que não estava bem, dizer que queria diferente. Fui silenciado! Tão cretino, mal-caráter e cínico ele era, que na medida que eu proporcionava as coisas a ele, sabendo que era eu me movendo para dar um caráter de seriedade à relação, que ao invés de chegar pra mim e dizer: “cara, eu não posso, ou não quero ter um envolvimento sério com você”, ele recebeu tudo que eu tinha para dar como seu eu fosse realmente a pessoa pela qual ele estava se envolvendo seriamente. Nessa relação destrutiva, a única pessoa que foi destruída fui eu: perdi emprego, perdi a casa que morava, perdi saúde mental e física… Estávamos juntos. Ele testemunhou tudo isso. Todas as minhas quedas. Depois que eu perdi tudo e nada mais tinha a oferecer, sim, o óbvio, ele rompeu comigo.

Ferido. Eu passei a me odiar novamente. A odiar a minha vida. A odiar quem eu sou. Depressão. Muitos surtos. Muitas tentativas de suicídio. Eu apenas não desejei, mas tentei me eliminar. Tratamento. Terapia. Muitos remédios. Elaborações… O tempo vai passando, não sem doer, mas vai passando…

Ontem a noite, conversando com meu pai, pessoa a quem sou muito grato por toda a força e pelo abrigo que ele me deu, levantei a hipótese “e se eu começasse a me relacionar com outra pessoa…”. Bastou dizer isso que a minha atual fortaleza (a minha relação com o meu pai), ruiu!

Sou o homossexual aceito pela família, desde que eu não envolva os meus relacionamentos com ela. Qual o sentido de ser homossexual então? Reprimir? Calar? Esconder?

NUNCA MAIS!

Eu reagi. Eu gritei.

E reagi não por causa do amor a uma pessoa que ainda nem existe em detrimento de meu pai. EU REAGI POR MIM! POR QUEM EU SOU! A QUEM QUER QUE SEJA, ENGULA: EU SOU HOMOSSEXUAL! VOU CHAMAR A QUEM QUER QUE SEJA DE MACHISTA E HOMOFÓBICO SE OUSAR A QUERER ME GUARDAR NUM ARMÁRIO, NUM BOEIRO, NUMA LATA DE LIXO! EU NÃO ACEITO MAIS ESSE LUGAR! HOJE EU TENHO ORGULHO DO QUE SOU! EU ME AMO DESSE JEITO! EU ME RESPEITO DESSE JEITO! E EU VOU SER DESSE JEITO E PRONTO!

Se para os meus pais, minhas avós, tios e tias, primos e primas, amigos e amigas for incomodo ser o que sou: AFASTE-SE! PORQUE VOU SER O QUE SOU E VOU FICAR APENAS COM QUEM QUER QUE EU SEJA O QUE EU SOU! VÁ A MERDA, QUE EU TÔ SOLTANDO ESSA FRANGA DE VEZ!

EU PREFIRO PASSAR FOME, NÃO TER PARENTE E NEM ADERENTE DO QUE NEGAR O QUE EU SOU! SOU GAY! E DAÍ? É UMA NECESSIDADE DE AUTO AFIRMAÇÃO TÃO URGENTE COMO BEBER ÁGUA, QUANDO SE ESTAR COM MUITA SEDE!

E por mais que eu esteja soltando todos os gritos, alguns ainda estão camuflados! Aos que abusaram de mim, se não me trouxesse um problema muito maior, porque sim, O NOSSO JUDICIÁRIO É MACHISTA E HOMOFÓBICO, comedor de criancinha, eu abria o berreiro e começava a divulgar nomes, com foto e com a faixa: CUIDADO! MACHISTA ESCROTO SUPER PERIGOSO! Ao canalha, cínico, escroto e mal caráter que abusou da minha boa fé, esse eu tenho vontade de dizer aos quatro cantos quem é! Só pra pagar todo o sofrimento que passei e ainda estou com as sequelas! Não faço, porque divulgar o nome com quem você teve uma relação homoafetiva em clandestinidade se configura em crime contra a honra, como difamação! PALHAÇADA! E não, eu não devo nenhum respeito a ele. E se eu não tivesse que sofrer um processo por desonra, quando eu não tenho nem como processá-lo porque sofri enormes danos psicológcos, morais e materiais, EU PANFLETARIA SUA FOTO E SEU NOME PELOS QUATRO CANTOS DO MUNDO! Não por achar vergonhoso ter uma relação homoafetiva, mas por ter vegonha de como uma pessoa age de uma forma tão cruel e achar ainda que é legítimo.

Pra que tanto ódio Tiago? ACHOU POUCO O QUE JÁ PASSEI? É ÓDIO MESMO! BEM FUNDAMENTADO E MARCADO NA MINHA HISTÓRIA E NO MEU CORPO! VÁ SE LASCAR COM O SEU DISCURSO PAZ E AMOR! O CORPO QUE APANHA UMA HORA GRITA! E EU ESTOU GRITANDO!

Que me desculpem meus amigos e amigas heterossexuais, meu ódio não é contra vocês. Meu ódio é dessa heterossexualidade posta como norma! Meu ódio é desse machismo que nos violenta todos os segundos, marcando nossos corpos, nossas mentes e nossos corações! Uma violência que é dolorida em suas mais variadas expressões: da pancada às suas formas silenciosas.

EU ESTOU ROMPENDO COM A CONVENIENTE DOCILIDADE! COM OS DESFARCES! QUEBRANDO AS PORTAS DOS ARMÁRIOS! RASGANDO O CASULO! EU ESTOU DECLARANDO UMA GUERRA MUITO SÉRIA AO MACHISMO E À HOMOFOBIA! E se isso dói em você, acho muito pouco! EU QUERO MAIS QUE TODO (OU TODA) MACHISTA E HOMOFÓBICO(A) SE EXPLODA, e por favor se você é isso, mantenha distancia de mim.

O que não foi

Eu não sei o dia do seu aniversário. Não sei quantos anos você tem. Não sei se você sabe dançar ou no que você pensa antes de dormir. Acho que eu me concentrei tanto na miragem de profundidade em que acreditei que a gente se viu desde sempre que a gente acabou esquecendo as coisas superficiais. Que coisa triste é esquecer as coisas superficiais.
Porque, sabe, no fundo é o amargo de não ter vivido as coisas bobas que vai ficar. “Esse gosto de sabão na boca. Arcoíris já mudou de cor. Uma rosa nunca mais desabrochou.”
Acho que alguém já escreveu um texto sobre isso, mas não importa. Eu até procurei que só, mas não achei e decidi escrever o meu. Porque, sim, o que vai ser difícil de superar é o que não aconteceu. Até porque, pensando bem, nem aconteceu tanta coisa assim. Nem era pra tanto, né?

Mas eu ainda vou dormir muito tempo pensando em que lado da cama você prefere, e olha que eu durmo de rede. Em como você reagiria quando me visse dançando loucamente pela sala. Ou como seria aquele sexo do domingo à tarde, que começa só porque a gente tá sem nada pra fazer e deitou um pouco ao lado um do outro pra ler, mas aí sentiu um cheiro de pele, e quando viu já era (melhor sexo, aliás). Ou como você fica quando tá bêbado. Se você acharia muito idiota quando eu propusesse passar a noite acordada jogando video game ou quando eu achasse genial a gente ficar em casa lendo poesia e cantando num sábado à noite, mesmo que fosse só a gente. Como seria competir pra ver quem faz o café melhor, ou brigar de verdade porque você acha que quase tudo na história da música é melhor que Beatles (sim, Queen é muito bom, mas só uma banda não deixou incólume nenhuma musicalidade produzida depois dela, e não foi o Queen, sorry). Ou o que você acharia de eu ter tantos lápis de cor na minha idade e se você me ajudaria a apontá-los certinho. Porque eu não sei como você é quando tá mal-humorado, se você também tem manias estranhas ou se coleciona alguma tralha. Ou qual o teu cheiro preferido no mundo todo. Ou se você gosta de dormir até muito tarde. Porque você não vai me ensinar a surfar, e eu não vou te encher o saco pra gente ir pular da ponte num sábado à tarde. Porque, como eu não sei quando é seu aniversário, eu não vou poder fingir que não é uma data importante pra mim e fazer um presente de papel e tinta pra te dar num dia que não tenha nada a ver. E eu não sei se você gosta de cafuné ou quando você se cansaria por eu pedir pra você mexer no meu cabelo o tempo todo. Porque a gente nunca vai planejar uma viagem juntos. E porque você nunca me viu chorar de verdade, e não vai saber que eu não sou nem de longe tão forte quanto tento parecer, desse jeito que parece te intimidar; que eu só não sei pedir ajuda, mesmo quando eu quero muito. Porque a gente nunca vai compartilhar nossa solidão.

Essas coisas todas, que eu quis com poucas pessoas na vida. Essas coisas banais de quem tem um amor de muito tempo, e a gente sequer chegou a ser amor. E não é como se eu tivesse acreditado em algum momento que essas coisas aconteceriam. Saber que não é possível não me impede de querer.
Mas aí eu lembro que não tem lugar pra mim que não seja de espera, e, você não sabe, mas eu detesto esperar. Porque eu cheguei tarde demais. E as coisas desandaram cedo demais. E nada garante que, eu chegando antes, seria diferente. E o que parece, pela realidade dos fatos, é que eu mesma fui só uma conquista entre as muitas espalhadas no teu mapa. Só nunca entendi por que destacar tantas tropas por uma terra que você nem queria e de que nunca precisou.

Então eu fico me esforçando pra me convencer de que tudo isso é uma grande viagem minha, e que daqui a pouco vai passar. Deve passar. Tem que passar, ou pelo menos que deixar de arder assim. Vou esperar que essa agonia toda seja só do corte começando a fechar, porque já tá muito claro que não tem jeito além de esperar a cicatriz. Mas hoje, só hoje que minha vida meio que tá explodindo na minha cara, eu seria capaz de jurar que te deixaria me tocar e pediria 05 minutos do teu abraço infinito.

Amor em Tempos Sombrios

“Amamos mais os nossos desejos, do que os objetos dos nossos desejos.” escreveu Nietzche na segunda metade do século XIX, período de expansão do sistema capitalista.

Tal sistema, fortemente associado à desigual distribuição de renda e poder, é precussor não apenas da exploração econômica, mas de uma exploração cultural também. Genericamente, cultura é todo um complexo de relações que inclui o conhecimento, os costumes, os desejos e todos os hábitos e aptidões adquiridos pela humanidade não somente em família, como também em sociedade. A forma de vestir-se, de falar, de se expressar e de amar são elementos culturais. Nessa simbiose entre economia e cultura, as relações entre humanos no sistema capitalista são marcadas pelo individualismo e pela produção permanente de desejos, de carências e de falta, em que o outro perde o seu estado de humanidade e torna-se coisa a ser consumida. Depois de satisfeita a necessidade, como tudo que é produzido e consumido nesse sistema, é descartada.

O capitalismo moderno altera drasticamente não apenas a esfera do trabalho, da produção e do consumo de bens materiais, mas também das relações entre os humanos. Os afetos e as relações interpessoais são impregnados pelos repertórios do mercado e pela lógica do cálculo, desempenho e da racionalidade econômica. Assim, o sistema capitalista penetra muito mais profundamente em nossa existência, parafreseando Foucault, filósofo contemporâneo.

O estilo afetivo no capitalismo moderno torna-se um conjunto de práticas culturais formadas por esquemas de compreensão, práticas sociais e técnicas ajustadas a apreender e gerir os afetos. Somos sistematicamente forçados a manejar as emoções, com aspiração única de autorrealização. São tempos de auto. Centralidade no eu. Tornando-nos seres competitivos para a posse de bens e formas de bem-estar socialmente almejados: autorrealização, desempenho e êxito não apenas no mundo das empresas, mas também nas relações amorosas.

Na configuração social dos relacionamentos amorosos da contemporaneidade é fácil notar o poder de estruturação e de enquadramento dos modos de agir e pensar do mercado. O espírito e a lógica das relações seguem claramente princípios típicos da racionalidade da esfera da troca de mercadorias e do mercado capitalista, tais como abundância, escolha ampla, valor, competição e desempenho. O resultado, como afirma a socióloga Illouz, é um vocabulário de afetos exclusivamente ditado pelo mercado.

A mediação da cultura capitalista na esfera das trocas amorosas alça ainda o processo de construção de subjetividades encenadas e objetificadas. Perfis de Facebook, Instagran. O sistema capitalista introduz um processo de racionalização dos afetos, incorporado, inclusive, pela psicologia e os credos terapeuticos. Ocorre, então, um vasto processo de racionalização das relações íntimas.

Quais as consequências disso? O desenvolvimento crescente de um maior domínio e autocontrole dos impulsos emocionais, consolidou uma despersonalização dos sentimentos, ou seja, a ideia de que os sentimentos podem ser desligados do sujeito para controle e esclarecimento. A omnipresença de modelos económicos passam a dar forma ao eu e suas emoções. Nos privamos a nós próprios da capacidade de amar com paixão. Os relacionamentos amorosos tornaram-se experiências egoístas de total desapego, hedonismo (a busca pelo prazer como único propósito), cinismo e ironia. Ocorre também uma separação da emocionalidade e da sexualidade, o lado escuro da revolução sexual, que coloca uns em posição inferior a outros, determinados pelas condições de emocionalidade.

Transformamos as relações amorosas, que deviam ser fonte de felicidade, em fonte de sofrimento. Sofrimento que ultrapassa as barreiras das dores interiores, pois ele deriva em parte da transformação das estruturas e das intituições sociais proporcionadas pelo sistema capitalista: a coisificação inerentemente débil e desapegada.

Posto isto, urge um modelo alternativo de expressão do amor através da sexualidade (para evitarmos o moralismo fácil) que não esteja separado dos nossos deveres para com os outros e as suas emoções. Para isto, temos que reinventar, coletivamente, a nossa capacidade de amar e que ela beba de uma ética que ponha a salvo a profundidade do amor como experiência humana.

Como diria Clarice Lispector, para contrariar a todos que queiram racionalizar o amor e os sentimentos: “O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.”

Sobre reaprender a viver…

Por que houve o amor, por alguém que nunca o priorizou?

Por que houve profundidade, se ele era raso e não sentia o coração?

Por que esse amor se disse forte, se quem o teve nunca o quis?

Nunca se deu de verdade, o evitou quando mais sentiu?”

A resposta pra essas perguntas é única. Porque tenho uma grande vocação pra ser trouxa. Mas de tanto insistir, chega o dia, embora bem tardio, de desistir. Se houver outras vidas, deixo para que elas resolvam os entraves dessa relação. Para essa vida, já deu. Era uma insistência que não estava fazendo bem a ninguém. Foi por si só um relacionamento em que carreguei e paguei por excesso de bagagem. Mas esse peso, eu não posso mais carregar.

Apaguei e me desfiz das lembranças, dos contatos. Foi uma atitude doída, mas necessária. Dentro de mim, ficam os buracos. Certamente um buraco que não vai se preencher nunca, pela profundidade que eu dedico aos meu relacionamentos, não apenas como amante, mas como amigo, como filho, como irmão. Eu me dou muito. E quem se dar muito, se fode! Perdi trabalho, perdi casa, perdi saúde, perdi a alegria de viver, perdi os sentidos de minha vida, porque me centrei em alguém que nunca iria corresponder ao amor que sentia. Não carrego essa culpa sozinho, pois como muito bem disse meu pai: pior do que ser trouxa, é quem se aproveita da trouxidão alheia. Quem se aproveita não passa de um cretino. É da mais pura falta de caráter.

O fato é que coleciono heranças malditas com esse fim: depressão, incertezas, insegurança, tristeza, desânimo… O buraco é um caldeirão dessas coisas. E como ele não se preenche, só me resta construir alicerces para uma outra coisa que ainda não sei o que é. Talvez consiga construir outros sentidos para tornar essa vida menos miserável. Até quando eu souber o que fazer, estarei na minha cabana, me privarei de frequentar espaços sociais (porque não estou mesmo nem um pouco afim de interagir mesmo), tomarei os comprimidos que cumprem bem a sua função de me fazer dormir, de me fazer acordar, de me fazer construir menos alucinações e delírios. Estarei duas vezes na semana no divã. Desabafando as minhas dores e tentando arrumar um jeito de sobreviver com os meus buracos.

Nunca mais serei a mesma pessoa, não sei se melhor ou pior. Acho que já chega de querer cuidar dos outros. Chega de implorar para que os outros cuidem de mim. Fiz isso a vida toda. Nesse processo de reaprendizado, tenho que me descobrir, me ver mais, cuidar mais de mim mesmo, trabalhar minhas outras habilidades, investir mais em mim, gostar de mim mesmo. Sim, ter o que mais me falta: amor próprio.

Até lá, continuo fechado para balanço. Que me desculpem as pessoas, mas não estou afim de estar com todos vocês, é um momento tão íntimo e intimista, que apenas aos muitos íntimos é possível estar perto.

Talvez um dia eu volte. Mas agora não. Atravessei uma tempestade. Há muitos destroços de mim. E até eu juntar alguns pedaços, pois sei que nem todos poderão ser recuperados, quero estar reservado. Para rever não apenas essa relação, mas todas as outras: como filho, como amigo, como irmão, como estudante, como empregado…

Preciso aprender a contar mais comigo mesmo do que contar com os outros. Preciso muito mais me apreciar do que fazer tudo para ter uma apreciação do outro. Com o outro, tudo é uma incerteza. Por mais que essa pessoa diga que gosta ou ama você.

Estou riscando da minha lista de conviventes todos os individualistas escrotos. Não quero mais gente que nada tem a dar e acrescentar na minha vida. E a qualquer um que seja, não darei nada mais que o necessário. Darei de mim apenas o proporcional ao que receber.

Chega de desequilíbrio na balança do esforço-recompensa nas relações. Não tenho vocação pra Cristo. Não ofereço mais a minha face. Não darei mais do que o necessário. Não amarei mais o próximo, do que a mim mesmo. Estou jogando essa cruz no chão. Na partida das minhas relações, de agora em diante, o único placar aceitável é 1 a 1.

Reaprendendo a viver, a amar, a me relacionar. Sem dar o gostinho de me tornar igual a muito de vocês. Porque em mim sempre haverá ternura, compaixão, solidariedade. Estarei um pouco mais endurecido, mas essas características estarão presentes.

Reaprender a viver. Não é a tarefa mais deliciosa do mundo. Quando temos que reaprender a viver, a gente sangra, chora, tem insônia, a gente apanha. Não se trata de uma folha em branco, onde a gente tem a oportunidade de se reescrever. As marcas do meu passado estarão sempre presentes. Tais marcas são objetos de minha reelaboração. É sobre elas que tenho que construir novas capacidades de amar, de ser e de estar no mundo.

Bagagem

“Desencana, meu amor
Tudo seu é muita dor
Vive
Deixa o tempo resolver
O que tem que acontecer
Livre”

Ultimamente tenho ouvido algumas reclamações sobre como tenho sido dura e amarga. Sim, provavelmente estou, mas não é que eu me sinta bem com isso. Infelizmente, é meu jeito de voltar ao casulo pra reelaborar algumas coisas que eu tô precisando remoer um pouco, foi mal. Acaba sobrando pra todo mundo, eu sei, embora não seja um problema com ninguém em específico. Não rio como de costume. Não faço piada como de costume, falo menos que o normal. Não tenho nenhuma vontade de convívio social, embora continue fazendo os esforços necessários. Então, eu entendo muito quem quiser estar distante agora. Juro que tô tentando ao máximo não magoar ninguém, mas também não tá dando pra ser doce.

Mas é curioso que este momento tem servido pra eu pensar muito sobre algumas coisas que eu quero e preciso mudar, e sobre uma coisa especificamente: por que eu viajo tão pouco, se eu gosto tanto de viajar? Aí eu tenho encontrado algumas respostas que tão me ajudando a começar a repensar o jeito como eu vivo.

Cês sabem que eu amo cremes, né? Que eu sempre disse que, se pudesse, teria um pra cada parte do corpo, que uso pelo menos 03 sabonetes sempre que tomo banho, essas coisas. O total de cosméticos que uso a cada banho comum é em torno de 10, entre xampus, condicionadores, hidratantes, desodorantes, perfumes (sim, tudo no plural). Fazendo um cálculo muito simples, já dá pra saber onde eu perco uma parte significativa do meu dinheiro todo mês. E, por incrível que pareça, é nessa besteira. E, sim, tô me referindo a isso como uma besteira porque nunca tinha parado pra pensar de verdade como isso se relaciona muito com uma cultura estúpida de consumo. Eu, que já li tanto sobre isso e que juro que faço o esforço de questionar os conteúdos que chegam a mim cotidianamente e sei as fortes contribuições que o consumismo dá à manutenção das desigualdades sociais que a gente vive.

Outra coisa que tô começando a reavaliar: eu sempre tento atender aos chamados sociais e dificilmente me nego a sair com alguém. Com muita frequência, quando meus amigos não tem com quem sair (e quando tem também, não é uma reclamação sobre os motivos), ligam/mandam mensagens pra mim, ou pra me chamar ou pelo menos pra perguntar o que fazer (detalhe que eu nem moro em Fortaleza a semana toda). Aí eu parei e pensei que eu mesma nem gosto tanto assim de sair à noite. Tem dias que tô a fim, mas no geral é indiferente ou eu prefiro ficar em casa jogando ou vendo filme. Uma boa parte da minha grana some entre as idas, vindas, bebidas, comidas, etc etc etc envolvidos em sair à noite. Geralmente eu me divirto, mas boa parte do tempo eu só tenho trabalho de achar algum lugar pra ir e gasto um dinheiro doido pra fazer as mesmas coisas de sempre.

Eu não preciso de tantos cremes. Eu não preciso farrear todo fim de semana. A gente às vezes acaba mantendo alguns hábitos por costume ou conveniência, e alguns deles não só não acrescentam nada como se tornam entraves pra gente conseguir fazer outras coisas nas quais sentiria muito mais prazer. Isso parece se estender a quase todos os aspectos da minha vida, pensando bem. Fui mantendo hábitos de que um dia até gostei muito, mas que hoje não importam tanto mais, e alguns são muito nocivos pra mim, inclusive (e talvez principalmente) em relação à minha vida sentimental.

Tô tentando fazer alguns acordos comigo nesse sentido. Sabe as listas que as pessoas fizeram no fim do ano, de objetivos e tal? Então, nunca faço, mas tô tentando, desse emaranhado de reelaboração que foram os últimos meses e que provavelmente serão os próximos mais ainda, sair com algo que eu possa aproveitar. Então eu quero ser uma pessoa mais leve, de tudo. Quero que todas as coisas de que eu preciso pra fazer a próxima viagem formem uma bagagem de um volume só. Isso nunca aconteceu. Geralmente, carrego pelo menos 03 vezes a bagagem de que eu realmente preciso. Pra viajar. Pra amar. Pra sentir. É normal eu pagar excesso de bagagem nos aeroportos. Geralmente pago alguns no resto da vida também.

Então, eu acho que vou tentar trocar um pouco as experiências de vida noturna agitada aos finais de semana e vou juntar grana pra viajar e ter outras experiências. Vou tentar gastar menos dinheiro com coisas das quais não preciso e que não sejam relevantes de verdade pra mim. Vou tentar entregar mais coração nas relações que me importam, e vou tentar ter mais calma antes de escolher quais são essas relações. E tentar não criar sozinha as que não existem e não acreditar nelas e não investir e não me desgastar tanto. E tentar usar a sinceridade que me é tão característica de maneira menos ríspida. E tentar ser parecida com a Jout Jout🙂

Vou tentar reorganizar a bagagem. Tudo aquilo que eu não puder carregar comigo, junto ao corpo, fica. Tudo que for me cansar mais que ser útil não vai. Tudo que não faz diferença pra como eu vou aproveitar minhas viagens (literal e metaforicamente) eu vou tentar deixar passar. Esse vai ser um exercício muito difícil pra uma pessoa que se acostumou tanto a levar o que não precisava da vida, mas toda mudança exige sua dose de exercício. Talvez assim eu produza menos lixo, cresça mais e comece a me interessar um pouco mais pela vida. Vamo tentar pra ver no que dá.

E o mal humor passa daqui a pouco, eu acho hehehe. Quem quiser, pode esperar pra ver.

P.S.: eu sei que aqui ultimamente nunca tem nada de socialmente relevante e que esse blog tem mais reclamação individualista que alguma contribuição para o mundo, mas, olha, tá na descrição do blog, né? Tem mais um monte de coisa interessante por esse mundo chamado internet, pode procurar. Talvez daqui a pouco a gente volte a escrever coisas sobre os acontecimentos sociais, mas neste momento tá todo mundo por aqui em reforma.

Sobre ficar banguela

Eu não sei exatamente quem culpar, sabe? Eu queria ser dessas pessoas que conseguem culpar tudo no mundo, inventar compulsões pra se desresponsabilizar, dizer “ah, juro que eu tento controlar, mas não consigo” (e aqui eu quero abrir a ressalva de que sei que há casos e casos, mas ainda tô com o Rossano Cabral na análise que ele faz de atualmente muita gente se vale disso porque é menos doloroso; a prevalência de transtorno não é tão alta quanto a frequência desse tipo de explicação, fica a dica). Simplesmente não tento mais controlar. Preferi tentar conviver com isso. Eu não sei se foram os músicos que minha geração ouviu, eu não sei se é a história da humanidade ser uma bosta, eu não sei dizer exatamente por quê, mas eu sempre me identifiquei como uma pessoa triste.

Eu ouvia Trio Irakitan, Tom Jobim, João Gilbeto, Caetano Veloso, Vinicius de Moraes, Chitãozinho e Chororó, Chico Buarque e Legião Urbana (entre outras coisas, como funk de protesto) quando era criança. Tô falando criança mesmo, 6, 7, 8 anos. E não era só ouvir: eu me identificava com aquilo, com aquela tristeza toda dissolvida em poesia e melodia. Na adolescência, acrescentei Radiohead, Travis, Raul Seixas, Alanis Morissette, Pato Fu, Los Hermanos. Mais tarde, Damien Rice, Amy Winehouse, Coldplay, The Magic Numbers, Arctic Monkeys, Chico César (eu sei que ele não é triste, mas não poderia não citá-lo na lista), Mônica Salmaso. Eu escrevia textos, entre prosa e poesia, muito tristes, com 10 ou 12 anos. Lembro que uma prima minha uma vez duvidou que eram meus mesmo e me fez escrever uns 04 ou 05 seguidos pra provar. E eu tinha tanto material guardado que consegui escrever.  Um dos meus livros preferidos na vida é “O apanhador no campo de centeio”.

Sim, é esse o tipo de gente que eu sou. Quer dizer que eu sempre sou triste e estou chorando, o tempo todo? Que eu tô sempre mal, que nada me faz achar graça? Não, quer não. Quer dizer que, mesmo que eu esteja alegre, cantando, rindo, dançando, está lá. Quer dizer que é muito difícil que se passe um dia sem que eu me lembre de todas as coisas estúpidas que eu já fiz na vida, e que elas são muito mais pungentes que qualquer coisa legal, inteligente ou amável que eu possa ter feito. E isso me faz sempre sentir mais estúpida, e eu fico achando que sou tão retardada (no sentido real, de atraso mesmo) que ainda tenho 13 anos, porque é isso que eu ouço sempre: que pessoas maduras aprendem a lidar com essas situações. Se eu não aprendi, é porque sou imatura, né?

Eu não gosto de viver como vocês todos parecem gostar, sabe? Na verdade, olho muito pra vida com essa sensação de “enquanto for interessante, eu fico”. Tô ficando, por enquanto, mas todo mundo que me importa já ouviu pelo menos uma vez na vida que não contem que isso vá ser até meu corpo não aguentar. Vai ser até eu não aguentar, e honestamente eu mesma nunca terei como dar garantias de quando vai ser isso.

Aí que uma das coisas que torna menos pesado estar viva é encontrar pessoas em que eu acho que posso confiar, com quem eu me sinto segura, ou, como diz o Deleuze, em quem eu consigo identificar essa centelha de loucura, com a qual eu posso me identificar. Aí que cada vez que uma imagem dessas se desfaz é um pouco mais difícil me levantar no outro dia. Todas as minhas relações significativas que passam por algo muito marcado, ou se transformam ou terminam (acho que as de todo mundo, anyway). E se as minhas terminam, elas definitivamente terminam. Se eu deixo de falar com alguém que amei muito, é pra pessoa nunca mais me ver propositalmente, em geral, e muitas vezes é sem momentos de explicação e esclarecimento. E isso é por quê? Porque eu sou uma pessoa cruel e fria? Um pouco, talvez. Mas é também porque é sempre muito muito difícil assumir que eu preciso me distanciar de alguém que já viu coisas muito importantes a meu respeito. Ou porque eu tô tão louca e tão perdida no meu medo de viver que eu não sei mais o que fazer.

Por conta desses episódios de não saber o que fazer, eu já fui muito ruim com algumas pessoas, inclusive com algumas que nem de longe mereciam. Eu sei disso, eu me arrependo amargamente, e eu nem insisto porque sei mesmo que nunca vou ter como me redimir, mas hoje eu realmente me esforço muito pra não ser ruim nas poucas relações que eu tento conservar ao longo do tempo.

Shade costuma dizer que eu tenho opiniões muito firmes sobre coisas banais. Bem, cada vez que eu compartilho uma dessas opiniões com alguém, eu tô botando pra fora um pouco dessas besteiras que eu fico pensando e fazendo quando tô sozinha (que é tipo 70% da minha vida). Mesmo quando eu tô ao lado de alguém com quem me sinto muito à vontade, eu passo muito tempo em silêncio. Aí você vem e se sente no direito de se identificar com todas as minhas banalidades. Pensa a mesma coisa sobre tudo que eu já pensei, ama todas as besteiras que eu amei sozinha a vida inteira, pensa o mesmo que eu sobre as coisas que eu nem sabia que outras pessoas pensavam, escava minhas fraquezas pra ser igual.

Isso depois de eu insistir que não gosto que as pessoas se aproximem. De eu ser chata mesmo, de não dar atenção a todo mundo, de não corresponder à altura ao carinho e à atenção que me dão quando eu não tenho intimidade, de recusar insistentemente os convites até parar de recebê-los. Eu não faço isso por acaso, na maioria das vezes. Eu faço porque eu não quero ter muita gente próxima, porque lidar com todas essas coisas em uma relação é sempre muito difícil pra mim. Mas aí você vem, e mesmo depois de ouvir todos os discursos sobre a minha chatice, sobre como eu não gosto e trato mal a maioria das pessoas, sobre como eu não sei lidar com as coisas simples que todo mundo enfrenta todo dia, você insiste mais. Tenta me deixar à vontade e me fazer sentir segura. Pra simplesmente dizer depois que não importa tanto, quando finalmente essas coisas acontecerem.

Vocês que conseguem viver a normalidade do cotidiano sem muito sofrimento provavelmente não entendem o efeito devastador que esse tipo de coisa tem pra gente dramática e chorona, pra quem tudo é apenas uma grande pegadinha da vida, como eu, sabe? Vocês acham que quando forem embora ou quando deixarem claro que nem se importam tanto assim, a gente vai aprender a lidar e vai sobreviver, e provavelmente é isso que vai acontecer, em parte. Porque eu mesma não vou morrer por conta disso, mas esse dente que você arrancou não vai nascer mais, e o sorriso por aqui vai ficar torto pra sempre.

Então não é como se eu esperasse muito amor de todo mundo. Pelo contrário, eu espero sempre que as pessoas sejam  ruins, ou no máximo desinteressantes, por isso quero distância da maior parte delas. Mas quando você insiste em fazer parte da minha vida eu realmente gostaria que você tivesse mais consideração pelo que eu sinto que simplesmente resolver que a brincadeira perdeu a graça. Eu acho que o que me faz uma grande trouxa na vida é exatamente isso: querer que algumas pessoas tenham por mim a consideração que eu tenho por elas. E, olha, nem tô dizendo esperar, que no fundo eu sei que cada pessoa tem pelas outras a consideração que quer, não a que é esperada; mesmo assim dói. E a pior parte é saber que sou eu mesma quem permite que essas coisas aconteçam. Por muito tempo eu achei que merecia isso. Hoje não.

Eu sei que vai parecer que esse texto é sobre uma pessoa específica, mas eu já passei TANTAS, TANTAS VEZES pelas mesmas situações descritas aqui, com relações de tantos tipos diferentes, que, acreditem, não é. É só que hoje foi mais um dia difícil, essas coisas pesaram mais, tá mais difícil me concentrar no que eu realmente deveria fazer. Precisava ver se ao menos o peito fica mais leve, já que a cara tá tão torta. Eu queria dizer que chega, e escrever é minha forma de elaborar isso.